Discípulo dileto de Florestan Fernandes, fez parte do núcleo fundador da chamada Escola Paulista de Sociologia, liderada pelo mestre e vários de seus assistentes, como o próprio Fernando Henrique, Octávio Ianni, Marialice Mencarini Foracchi, Maria Sylvia de Carvalho Franco. A segunda geração de cientistas sociais de relevo formados por Florestan Fernandes, a exemplo de José de Souza Martins, Gabriel Cohn, Luís Pereira, Sedi Hirano, dentre outros, manteve a tradição das Ciências Sociais criada na USP, da qual somos herdeiros. O correto dimensionamento da importância dos sociólogos congregados em torno de Florestan Fernandes exige superar os limites da disciplina. O celebrado Seminário Marx, organizado pelos jovens assistentes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que reuniu, além do próprio Fernando Henrique e de Octávio Ianni, o filósofo José Arthur Giannotti, o historiador Fernando Novais, a antropóloga Ruth Cardoso, o economista Paul Singer, o crítico literário Roberto Schwartz, pode ser interpretado como desdobramento das iniciativas inovadoras em curso na USP que, finalmente, acompanhava a institucionalização da vida universitária em São Paulo, pari passu à modernização do Brasil do pós-Segunda Guerra, intensificada na década de 1950.
Aliando ao conhecimento das vanguardas científicas dos centros hegemônicos, a busca de entender a natureza da formação moderna no País, a produção que resultou do seminário criou outro paradigma de compreensão da história brasileira nas suas diversas facetas. Inspirada pelo impulso renovador do marxismo, a reflexão daí advinda recusou as explicações dogmáticas, renovou as interpretações, sobretudo produziu obras marcantes do pensamento brasileiro, que hoje fazem parte do panteão dos textos clássicos. Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, tese de doutoramento de Fernando Henrique, defendida em 1961, ousou pensar, na contramão das leituras dogmáticas do marxismo, a estreita relação entre a sociedade escravista e a constituição do capitalismo na Europa. Nessa acepção, o escravismo colonial encontrava-se na gênese da sociedade moderna no centro, instaurando uma espécie de solidariedade entre fenômenos tipicamente contraditórios, com consequências de grande monta à formação do capitalismo na periferia moderna. Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico, livre-docência, defendida em 1963, enfrenta as teses sobre o desenvolvimento nacional então em voga, mostrando, por intermédio da pesquisa, o caráter conservador da burguesia brasileira, encurralada entre as forças oligárquicas tradicionais, o capital internacional ao qual se associou, arrefecendo seu impulso empreendedor, já que se satisfez com o papel de sócia menor do capitalismo ocidental. A análise se encerra com uma indagação surpreendente: “No limite a pergunta será então, subcapitalismo ou socialismo?”. Os escritos sobre a dependência, concebidos durante a sua permanência na Cepal, tornaram-no o principal formulador da Teoria da Dependência, construção tipicamente referida às sociedades latino-americanas, assim como a categoria de subdesenvolvimento do brasileiro Celso Furtado. Embora por vezes próximos, os dois conceitos preservam diferenças, visto que, nas análises sobre a dependência, Fernando Henrique acentua a dinâmica das classes sociais e o papel do poder do Estado.
Após a sua aposentadoria compulsória em 1969, determinada pelo golpe político de 1964, Fernando Henrique experimentou como intelectual e professor das mais importantes universidades internacionais o que Celso Furtado encerrou na feliz expressão, “os ares do mundo”. No seu retorno ao Brasil, criou, junto com outros, o Cebrap, instituição de pesquisa importante até hoje. Datam desse período, os livros O Modelo Político Brasileiro, de 1972, Autoritarismo e Democratização, de 1975, obras que propõem interpretação original sobre o autoritarismo no Brasil. A sua condição de presidente do Cebrap aproximou-o das forças políticas identificadas com a democratização do País, levando-o a reconverter a sua vocação, mesmo que seja factível reconhecer a presença do político no cerne da condição do sociólogo e que a conjuntura do momento impusesse assumir compromissos públicos. Talvez a melhor maneira de apreender esse movimento de mudança de prioridades tenha sido sintetizada por ele próprio. Confrontado com as suas decisões como presidente vis a vis a sua obra, respondeu: “esqueçam o que eu escrevi”, ou seja, seguindo os ensinamentos de Max Weber, reafirma a divergência de valores entre a ética do compromisso e a ética da responsabilidade; a política e a ciência são esferas diversas.
Nesse andamento, a biografia intelectual de Fernando Henrique Cardoso é coerente com a máxima do sociólogo Hans Freyer, para quem existe um elo entre o pensamento sociológico e o querer social, tornando a sociologia autoconsciência científica da sociedade. Segundo este entendimento, a condição do sociólogo compromete-se, desde a sua gênese, com o tratamento das questões candentes da vida social, mas não se confunde com a pura normatividade, tampouco resulta da projeção imediata dos valores do cientista social. No intervalo entre essa tensão originária que se defronta com a pesquisa, a ciência é produzida, cuja neutralidade possível deriva de procedimentos metódicos controlados, empiricamente embasados por meio do rigor dos procedimentos, fundamentos da explicação sociológica. A obra e o percurso de Fernando Henrique Cardoso expressam a grandeza e os desafios do métier, assim como a difícil conciliação entre ação pública e ciência, entre compromisso e afastamento. Em consonância com as concepções de Florestan Fernandes, que jamais se alforriou da defesa dos princípios civilizatórios derivados da afirmação dos direitos em todas as suas expressões, a trajetória do sociólogo-presidente expôs, não obstante, todo um universo permeado por escolhas divergentes àquelas do mestre.
Constatar a presença de inclinações ocorridas no curso do seu pensamento, construídas no confronto com a prática política, revela a tentativa de conciliar, de modo próprio e nem sempre apaziguado, as duas faces da sua biografia que, de resto, estavam contidas nas suas disposições biográficas, no seu cabedal sociológico. Embora construídos por lógicas diversas, esses mundos estranhados se encontram no plano das vivências pessoais. A sua sociologia e os compromissos políticos que assumiu elucidam os nossos impasses e os dramas da nossa história, enlaçam, em suma, as nossas escolhas possíveis, constroem os nossos percursos, mesmo a despeito das nossas intenções mais declaradas. Fernando Henrique Cardoso, um dos últimos remanescentes da sua geração, chegou aos noventa e cinco anos, cumpridos nesse 18 de junho, reconhecido como personalidade inexcedível da história brasileira nas últimas décadas.
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