Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP
Segundo o Dicionário Houaiss, a palavra “misantropia” está registrada na língua portuguesa desde os primeiros tempos do século 19. Apesar disso, tudo indica que milhões de brasileiros tiveram seu primeiro contato com o termo, de forma repentina, há bem menos tempo. Na madrugada do último 20 de junho, quando cidadãos foram acordados por um estridente alarme falso disparado pela plataforma da Defesa Civil, a ferramenta de pesquisa Google Trends registrou um abrupto pico de buscas, direto assim: “misantropia significado”.
Horas após o segundo jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, o que unia a nação não era, portanto, o futebol, mas a dúvida: “de que precisamos nos proteger?”. Muitos que recorreram ao Google, atual pai dos conectados (substituindo o “pai dos burros” de antanho), se depararam com esta definição: “Misantropia é a aversão, desconfiança ou repulsa generalizada pela humanidade e pela natureza humana”. Curiosamente, concluíram: “Se é só isso, posso voltar a dormir”.
Nós aqui, mesmo sem censurar quem tenha retornado aos braços de Morfeu, gostaríamos de aprofundar um pouco a reflexão linguística que o episódio suscita.
Leetspeak: o que significa o número 4 em “misantropi4”?
Quem tem certo contato com redes sociais, certamente já se deparou com recursos linguísticos da chamada leetspeak, uma forma de escrever usada inicialmente por hackers e gamers – uma autodenominada “elite” digital (em tradução literal, leetspeak seria uma “fala da elite”).
Essa forma de escrita consiste basicamente em substituir letras por números ou símbolos graficamente semelhantes. São exemplos as grafias “s3x0” (em vez de “sexo”) ou “dr0g45” (em vez de “drogas”). No falso alerta da Defesa Civil, tal grafia se fez presente de forma sutil, com a substituição do “a” final por um número “4” (a mensagem dizia, literalmente, “misantropi4”).
Em redes como Instagram, TikTok ou YouTube, há programações para identificar termos associados a discursos de ódio ou cometimento de crimes. Busca-se localizar tais palavras-chave para reduzir o alcance de conteúdos potencialmente danosos e, quando necessário, submetê-los à revisão humana. É por isso que vocábulos como “violência”, “pornografia” e “pedofilia” frequentemente são escamoteados por meio da leetspeak (“v10l3nc14”, “p0rn0gr4f1a” e “p3d0f1l14”), a intenção é driblar a programação algorítmica.
No caso do disparo em massa, porém, outro motivo pode explicar a presença de leetspeak, afinal, o termo não estava sujeito a algoritmos de uma rede social (uma vez que sua veiculação se deu por meio da plataforma de alertas da Defesa Civil). Assumindo, como informado pelo próprio órgão, que o envio foi ocasionado por uma invasão de hackers no sistema, a sutil troca de uma letra por um número parece estar a serviço de outro fim: a afirmação de uma identidade, já que a leetspeak, em sua origem, é uma espécie de “gíria hacker”. Por meio do código utilizado, o emissor parece sinalizar quem é, ou ao menos a comunidade digital à qual pretende associar-se.
“Trouxeste a chave”? O que pode significar “misantropi4” nesse contexto?
Um dos mais célebres poemas de Drummond, “Procura da poesia”, faz uma relevante advertência: quando está “em estado de dicionário”, cada palavra “tem mil faces secretas sob a face neutra”. Isso implica assumir que, quando as retiramos do que o poeta chamou de “reino das palavras”, elas assumem alguma (ou algumas) dessas faces.
Voltando à “misantropi4”, os leitores da mensagem, na maior parte das vezes, ignoraram o alerta drummondiano (talvez pelo apelo irresistível da cama quente na madrugada fria), limitando-se à sua “face neutra”.
“Em estado de dicionário”, o termo significa, em resumo, “ódio pela humanidade”. No entanto, qual o significado desse mesmo vocábulo no texto que recebemos? Por que o hacker (ou o grupo de hackers), logo após um momento de comunhão nacional (o jogo da Seleção), empenhou esforços para invadir um sistema bastante protegido e enviar uma mensagem de ódio contra todos nós?
A plataforma de alertas, por si mesma, já contém um significado. O próprio canal, nesse caso, já interfere no sentido das mensagens veiculadas. Seu aviso sonoro, por si mesmo, já significa algo como “esteja atento, corremos risco”. O elemento verbal, nesse caso, tem a função de especificar o perigo. Quando os invasores escolhem veicular “misantropi4” por meio de uma plataforma destinada a alertas de risco, é adequado interpretar o ato como mera “molecagem”, como uma simples brincadeira?
“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída”
Sem nenhuma intenção de criar alarde, recorremos à inusitada situação para destacar como o ato leitor pode ser mais amplo ou mais restrito, bem como implicações práticas de uma leitura superficial. Leitores mais proficientes sabem, às vezes intuitivamente, que interpretar um texto está além de saber o significado isolado dos termos, exigindo uma série de outros conhecimentos, não apenas linguísticos.
A construção do significado se dá em um evento comunicativo, no qual o que se inscreve na página (ou na tela) é uma espécie de “ponta do iceberg”. Quem são os interlocutores, qual o seu momento histórico, qual repertório eles compartilham, isso tudo faz parte do processo de textualização.
Em resumo, conhecer o código utilizado (no caso, o vocábulo “misantropia” e o recurso ao leetspeak) e mobilizar outros dados contextuais é indispensável para saber se o texto que recebemos comunica algo preocupante (o que, esperamos, deve estar no horizonte das autoridades), ou se o grande ato misantropo foi apenas atrapalhar o sono dos justos naquela gélida madrugada. Em qualquer caso, o episódio serve de lembrete: interpretar um texto é sempre mais do que consultar o significado das palavras.
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