Obra vem sendo reconhecida como uma ferramenta para refletir sobre identidade racial, relações de gênero e desigualdades sociais na educação
Por Milena Miyazaki Grigoletto*
A doutoranda em Ciências Sociais pela Unesp de Marília e estudante de Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Carina Zacarias Barros, é autora do livro Construindo a Igualdade de Gênero: escrevivências, outras subjetividades e a (re)construção das identidades sociais juvenis. Publicada pela Editora Paco, a obra resulta de pesquisas desenvolvidas ao longo de sua trajetória acadêmica e propõe uma reflexão sobre as relações de gênero, raça e classe social no ambiente escolar, tendo como foco a experiência de estudantes da educação básica.

A pesquisa teve origem durante a graduação da autora em Pedagogia pela Unifesp, quando atuou em escolas públicas de Guarulhos por meio de programas de residência pedagógica. Nesse período, Carina participou de estudos sobre o Programa Mulher e Ciência, iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) voltada à promoção da pesquisa e do debate sobre gênero em diferentes níveis de ensino. Uma das ações do programa era o Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero, que premiava produções de estudantes e pesquisadores sobre o tema e oferecia bolsas de estudo para jovens do ensino médio.
Ao analisar trabalhos produzidos por participantes do prêmio, a autora identificou reflexões sobre identidade, racismo, heteronormatividade, patriarcado e violência de gênero. O material serviu de base para pesquisas posteriores, que buscaram compreender a relação entre políticas públicas, movimentos sociais e educação. No mestrado, Carina aprofundou a investigação sobre os impactos dessas iniciativas nas escolas e desenvolveu trabalho de campo em uma unidade de ensino médio localizada na periferia de Guarulhos.
Analisando narrativas
O livro adota como referência o conceito de “escrevivência”, formulado pela escritora Conceição Evaristo, para analisar narrativas e experiências de jovens estudantes e também da própria autora. A proposta é valorizar formas de produção de conhecimento construídas a partir das vivências de grupos historicamente marginalizados, incorporando perspectivas interseccionais que consideram simultaneamente gênero, raça e classe social.
Escrita em primeira pessoa, a obra combina pesquisa acadêmica, análise de políticas educacionais e relatos de experiências vividas em escolas públicas. Segundo a autora, a publicação do trabalho em formato de livro foi motivada pelo compromisso de tornar os resultados da pesquisa mais acessíveis para além da universidade e contribuir com debates que seguem presentes no cotidiano escolar.

Embora não tenha sido concebido exclusivamente para educadores, o livro vem sendo recebido por professores e professoras da educação básica como uma ferramenta para refletir sobre identidade racial, relações de gênero e desigualdades sociais na educação. Para Carina, a obra também permite compreender a escola como um espaço de disputa, diálogo e transformação social, marcado pela atuação de movimentos sociais e pela implementação de políticas públicas voltadas à ampliação de direitos.
Entre as contribuições da obra estão a defesa de uma compreensão relacional do gênero, articulada às questões raciais e às desigualdades sociais; a retomada histórica do papel dos movimentos sociais na formulação de políticas públicas; o uso de metodologias como a interseccionalidade e a escrevivência; e o diálogo com a produção intelectual de filósofas negras. A autora também destaca a importância de reconhecer outras subjetividades, refletir sobre as experiências das juventudes, especialmente da juventude negra, e compreender a escola como um espaço de resistência e transformação social.
Lançado em novembro de 2025, o livro está disponível nas principais plataformas de venda e no catálogo da Editora Paco. Além da publicação, a autora participou de debates sobre a temática em diferentes espaços acadêmicos, entre eles, uma conversa promovida pelo Coletivo Marias, vinculado ao curso de Relações Internacionais da USP.






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