Pagamentos acima do teto constitucional reacendem o debate sobre desigualdade, uso dos recursos públicos e concentração de benefícios em uma pequena parcela do funcionalismo
Na coluna desta semana, Luciano Nakabashi comenta a divulgação de novos casos de supersalários no Judiciário que mostra, apesar das recentes limitações impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao pagamento dos chamados “penduricalhos”, que diversos tribunais estaduais continuam remunerando magistrados acima do teto constitucional, hoje fixado em R$ 46,4 mil mensais. Na prática, decisões do próprio STF permitem que verbas indenizatórias elevem esses rendimentos em até 70%, fazendo com que os vencimentos cheguem a aproximadamente R$ 79 mil por mês. Mesmo assim, há registros de pagamentos superiores a esse valor, incluindo casos que ultrapassaram R$ 1 milhão em um único mês. A discrepância chama atenção quando comparada à realidade da população brasileira, cuja maioria vive com até dois salários mínimos mensais. Trata-se de uma diferença que ultrapassa 20 vezes a renda da maior parte dos trabalhadores e que levanta questionamentos sobre a razoabilidade desses privilégios em um país marcado por profundas desigualdades sociais.
As consequências desse modelo vão além da discussão sobre remuneração. O pagamento de valores tão elevados com recursos públicos reforça a percepção de que determinadas carreiras de Estado permanecem protegidas por privilégios incompatíveis com a realidade econômica do País. Enquanto isso, milhões de brasileiros enfrentam dificuldades para acessar serviços públicos de qualidade, como saúde e educação, e convivem com limitações para atender às necessidades básicas do dia a dia. Recursos que poderiam contribuir para ampliar a igualdade de oportunidades acabam direcionados à manutenção de benefícios concentrados em uma pequena parcela do funcionalismo. Esse contraste evidencia um problema estrutural: a persistência de mecanismos que favorecem grupos privilegiados em detrimento do interesse coletivo, perpetuando desigualdades históricas de renda, poder e acesso aos recursos públicos.
Reflexão Econômica
A coluna Reflexão Econômica, com o professor Luciano Nakabashi, vai ao ar quinzenalmente, quarta-feira às 9h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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