A ascensão das big techs (conglomerados como Google, Meta, Amazon, Apple e Microsoft) representa uma das transformações mais profundas da economia e da política global nas últimas décadas. Mais do que empresas privadas, essas corporações tornaram-se infraestruturas essenciais da vida social, mediando comunicação, consumo, informação e até mesmo decisões políticas.
O poder acumulado por essas entidades ultrapassa fronteiras nacionais, desafia regulações estatais e ameaça os fundamentos das democracias liberais. E partindo da hipótese de que o crescimento descontrolado das big techs configura uma nova forma de dominação tecnoburocrática, conforme delineada por Luiz Carlos Bresser Pereira, e que, como alerta Yuval Noah Harari, pode culminar em algum tipo de “regime totalitário sem precedentes”, baseado na vigilância digital e na manipulação algorítmica, é possível fazer uma análise estruturada em três eixos:
• A formação da tecnoburocracia como classe dominante;
• O risco de totalitarismo digital; e
• A resistência das big techs à regulação democrática.
A tecnoburocracia como nova classe dominante
Segundo Bresser Pereira, a tecnoburocracia é uma classe social emergente composta por técnicos, administradores, militares e intelectuais que, ao longo do século 20, passou a ocupar posições estratégicas no Estado e nas grandes corporações. No contexto atual, as big techs e seus líderes (engenheiros, programadores, cientistas de dados) não apenas detêm o conhecimento técnico, mas também controlam os fluxos de informação que estruturam a vida social.
Como afirma Bresser Pereira, “a tecnoburocracia não é apenas uma elite funcional; ela é uma classe com interesses próprios, capaz de capturar o Estado e moldar a sociedade segundo sua lógica”.
Essa captura se manifesta na capacidade das big techs de influenciar políticas públicas, financiar campanhas eleitorais, definir padrões de consumo e moldar o debate público.
A tecnoburocracia digital, portanto, não é neutra: ela opera segundo interesses econômicos e ideológicos que frequentemente colidem com os princípios democráticos.
O totalitarismo digital e o alerta de Harari
Yuval Noah Harari alerta que a tecnologia digital, especialmente quando combinada com inteligência artificial e big data, pode viabilizar o regime totalitário mais eficiente da história. Diferente dos totalitarismos do século 20, baseados em repressão física e propaganda, o totalitarismo digital opera por meio da vigilância constante, da coleta de dados biométricos e da manipulação comportamental.
Segundo Harari, “se o Stalin do século 21 tiver acesso aos dados biométricos e aos algoritmos de aprendizado de máquina, ele poderá conhecer melhor os cidadãos do que eles mesmos”. Essa capacidade de prever e influenciar comportamentos representa uma ameaça direta à autonomia individual, à liberdade de expressão e à pluralidade política. As big techs, ao coletarem dados de bilhões de usuários, tornam-se agentes potenciais desse novo totalitarismo.
Embora operem sob a lógica do mercado, sua infraestrutura pode ser facilmente apropriada por governos autoritários ou utilizada para fins de controle social. A ausência de regulação eficaz e a opacidade dos algoritmos agravam esse risco.
A resistência das big techs à regulação democrática
A tentativa de regular as big techs tem enfrentado forte resistência, tanto por parte das próprias empresas quanto de grupos políticos alinhados com seus interesses.
Um exemplo emblemático ocorreu recentemente no Nepal, onde o governo propôs uma legislação para responsabilizar plataformas digitais pela disseminação de conteúdos extremistas, racistas e criminosos. A resposta foi imediata: grupos de extrema direita, incentivados por campanhas on-line, promoveram protestos violentos, acusando o governo de censura e autoritarismo. Esse episódio revela como as big techs, ao se posicionarem como defensoras da “liberdade de expressão”, acabam por proteger práticas nocivas à democracia. A ausência de responsabilização legal permite que conteúdos de ódio, desinformação e incitação à violência circulem livremente, minando o tecido social e polarizando o debate público.
Outro caso relevante foi a reunião entre líderes das big techs e o governo Trump nos Estados Unidos. O encontro, realizado na Casa Branca, teve como objetivo discutir políticas de moderação de conteúdo e regulação das plataformas. No entanto, observadores apontaram que a reunião serviu mais para alinhar interesses políticos do governo com as estratégias das empresas do que para promover uma regulação efetiva. A proximidade entre poder político e poder corporativo revela uma simbiose preocupante, que compromete a independência das instituições democráticas.
Impactos sobre a democracia
O poder desmedido das big techs tem múltiplos impactos sobre as democracias contemporâneas:
• Erosão da soberania nacional: governos perdem a capacidade de legislar sobre temas cruciais, como privacidade, segurança da informação e tributação digital.
• Manipulação algorítmica: os algoritmos das plataformas definem o que os usuários veem, influenciando opiniões, comportamentos e decisões eleitorais.
• Polarização política: a lógica de engajamento das redes sociais favorece conteúdos extremos, promovendo a radicalização e o conflito.
• Deslegitimação institucional: campanhas de desinformação minam a confiança nas instituições públicas, na imprensa e na ciência.
Esses efeitos não são colaterais, mas estruturais, mas decorrem do modelo de negócios das big techs, baseado na maximização do tempo de uso, na coleta de dados e na monetização da atenção. A democracia, nesse contexto, torna-se vulnerável à lógica do mercado e à engenharia comportamental.
Diante desse cenário, é urgente formular alternativas regulatórias e institucionais capazes de conter o seu avanço, e fortalecer os regimes democráticos. Algumas propostas incluem:
• Transparência algorítmica: exigir que as plataformas revelem os critérios de funcionamento de seus algoritmos, permitindo auditorias independentes e controle social.
• Responsabilização legal: estabelecer marcos legais que responsabilizem as empresas pela disseminação de conteúdos ilegais, sem comprometer a liberdade de expressão.
• Plataformas públicas: criar plataformas digitais públicas, geridas por instituições democráticas, que ofereçam alternativas éticas e transparentes às redes comerciais.
• Tributação digital: implementar impostos sobre receitas digitais, redistribuindo recursos para políticas públicas e reduzindo a concentração de poder econômico.
• Cooperação internacional: estabelecer tratados multilaterais para a governança da internet, evitando que empresas escapem da regulação por meio de jurisdições favoráveis.
Torna-se evidente que o crescimento descontrolado das big techs representa uma ameaça concreta à democracia contemporânea.
A tecnoburocracia instaurada por essas corporações, aliada ao totalitarismo digital que se manifesta na vigilância algorítmica e na manipulação de informações, exige uma resposta urgente e coordenada por parte dos Estados democráticos, da sociedade civil e da academia. A regulação democrática das Big Techs não é apenas uma necessidade jurídica ou econômica, mas um imperativo ético e político.
É preciso garantir que os direitos fundamentais dos cidadãos não sejam subordinados aos interesses comerciais de plataformas digitais. A experiência internacional, com iniciativas como o Digital Markets Act na União Europeia, demonstra que é possível construir mecanismos regulatórios eficazes sem comprometer a inovação tecnológica. Nesse contexto, a sociedade civil deve assumir um papel ativo na fiscalização e na proposição de políticas públicas que assegurem a transparência, a responsabilidade e a equidade no ambiente digital.
A academia, por sua vez, deve continuar a produzir conhecimento crítico e interdisciplinar que ilumine os desafios e proponha soluções para a governança das tecnologias emergentes, uma vez que a defesa da democracia no século 21 passa necessariamente pela construção de um ecossistema digital regulado, plural e inclusivo, onde os direitos humanos sejam respeitados e a cidadania digital possa florescer plenamente.
________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)








/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/h/Y/0MFXK0T2qtR5nA5MdT4A/g1-cratera-colonia-cmj00218-dji-0965.mxf-frame-924.jpeg)