São recorrentes as inúmeras discussões sobre o protagonismo acelerado das inteligências, desde os sistemas especialistas e o aprendizado de máquina até as mais “autônomas” artificiais, generativas e agênticas em nossa sociedade, sem considerar as que em breve virão. Impactos, críticas, exaltações e irreversibilidades surgem em conteúdos da mídia, da academia, de organizações diversas e das instituições públicas.
Propomos refletir sobre o papel do jornalismo e das ciências da comunicação neste cenário sociotécnico impermanente.
Sabemos que essas inteligências são de desenvolvimento e governança privados, de aplicação pública e de controle de usos e poderes pouco transparentes. Sabemos, ainda, que dispositivos inteligentes operam numa suposta autonomia que é na realidade alimentada pelo humano, cujos critérios, fontes e origens são diversos, mas que sem tais ações do homem as IAs seriam pouco credíveis. É possível considerar que as ambiências digitais atuam num cenário pervasivo, enraizado em todos os aspectos, desde o cotidiano às operações complexas e, cada um de nós estamos, de algum modo, impactados e agindo ao sabor das lógicas algorítmicas.
Por outro lado, é oportuno relembrar que a comunicação e o jornalismo são entes institucionais secularmente presentes nas sociedades, cujos objetivos sempre permaneceram: narração e explicação dos acontecimentos e fatos, construção da opinião coletiva, voz de alerta social, dentre os principais a despeito das transformações sociotécnicas e das vertentes ideológicas e/ou editoriais. Comunicação e jornalismo são campos fundados nas epistemes das ciências sociais, onde a leitura filosófica do mundo é um de seus pilares. Ao mesmo tempo e sem abandonar tal visão, à medida da aceleração dos dispositivos digitalizados, as intersecções entre o campo jornalístico e os aspectos técnicos criam, necessariamente, aproximações transversais que nos levam às reflexões que seguem.
Não por acaso, ante o cenário instalado e as significativas transformações ora vivenciadas pela profusão de inteligências, assistimos a onda – um hype iniciático que ocorre, especialmente nas inovações paradigmáticas, explorado por mídias, redes sociais e pelo léxico coletivo. O que temos a refletir é como os processos sociotécnicos, onde jornalismo e comunicação são centrais, irão evoluir e quais serão os próximos impactos e, principalmente como os meios de comunicação irão atuar e operar na manutenção de seu papel legítimo e institucional.
Não por acaso que recentemente acompanhamos, lemos e refletimos por meio de uma profusão de artigos na mídia, pensatas em newsletters, papers acadêmicos que retomam o pensamento filosófico. Articulistas em nossos principais veículos de imprensa vêm se manifestando com discussões sobre cognição humano-maquínica, olhares revistos sobre conceitos como inteligência, consciência, responsabilidade político-epistemológica, autoria, autonomia, julgamento, verdade. Adicione-se as ações publicizadas de desenvolvedores de modelos de inteligência artificial – Anthropic, OpenAI, Google, que estão “comprando” milhões de livros impressos (e os destruindo depois), além de bancos de dados de fóruns e redes sociais para “treinar” seus modelos a fornecer respostas aproximadas à cognição humana. Na mesma linha, esses desenvolvedores estão realizando licenciamento para uso de conteúdo e notícias de empresas de mídia.
Poderíamos listar uma infinidade de autores acadêmicos, pesquisadores consagrados e centros de referência como o MIT que sempre tomaram a filosofia como protagonista dos processos transformadores do humano e que, com a digitalização, o campo (re)emerge em sua visibilidade para sustentar que a presença cotidiana dos modelos de inteligência artificial não ocorre apenas por conta de competências computacionais, mas também de pressupostos ontológicos, epistemológicos e éticos sobre o que significa conhecer, interpretar, decidir e agir.
Recentemente, a Folha de S. Paulo republicou artigo de Benjamin Wallace, do The New York Times, sob o título The revenge of the Philosofy Majors, onde discute uma nova empregabilidade de filósofos pelos laboratórios desenvolvedores de modelos de inteligência artificial. Segundo Wallace:
“Uma das disciplinas mais antigas da humanidade e uma de suas invenções mais recentes parecem ter sido feitas uma para a outra. A inteligência artificial oferece aos filósofos uma nova maneira de formular questões ancestrais, ao mesmo tempo em que introduz um conjunto inteiramente novo de problemas para os quais eles estão especialmente preparados: questões sobre verdade, crença e conhecimento (epistemólogos); sobre o raciocínio (lógicos); e sobre a mente e a consciência (filósofos da mente e da consciência). Para os especialistas em ética, em particular, a inteligência artificial representa um verdadeiro campo fértil de investigação e reflexão”.
Já que, por óbvio, convivemos com entes inteligentes-generativos-agênticos, temos a discutir as questões situadas no jornalismo e no campo da comunicação como um todo. Qual o papel que o campo informativo, a partir de sua autoridade epistêmica consolidada, deve ter neste cenário?
O jornalismo (muito resumidamente) tem em suas bases a produção de conhecimento, o dar a conhecer acontecimentos e fatos para a formação da opinião pública e o agir social para a construção de um cenário opinativo democrático – falamos de práticas como o gatekeeping, o agenda-setting, o fact checking e os padrões éticos do campo. Sabemos, ao mesmo tempo, que o campo jornalístico passa por revisões de seus procedimentos a cada inovação decorrente da digitalização – um processo que muitas vezes é permeado por fricções e questionamentos sobre a relação com o “mundo da tecnologia da informação”, considerando que ferramentas não opinam nem narram e explicam acontecimentos. A plataformização e agora os modelos inteligentes, criados e gerenciados por elementos externos (as big techs e os desenvolvedores de IA), surgem como entes desestabilizadores e intervenientes nos aspectos de autonomia e ética, dentre os essenciais. Estaríamos, novamente, diante de mais um dilema?
Em artigo recente publicado no periódico Digital Journalism são discutidos alguns aspectos com potencial de produzir abalos diversos na credibilidade e legitimidade do campo. Por exemplo, automação de procedimentos redacionais repetitivos e análise de bases de dados que poderiam aumentar a produtividade do jornalista; a geração de conteúdos realistas produzidos por inteligência artificial que reduzem a habilidade da audiência em distinguir o que foi produzido por não humanos e, consequentemente, desafiam a confiabilidade da informação e da própria marca jornalística; o crescente protagonismo participatório da audiência por conta das redes sociais e, também, a mimetização de conteúdos por parte de não jornalistas; ou, ainda, a perda ou o compartilhamento com os LLM do controle de todo o processo ontológico que sustenta as atividades de uma redação. O negócio informativo também enfrenta desafios com a subordinação à plataformização e à modulação algorítmica, o declínio dos modelos de negócio tradicionais e a concorrência dos empreendimentos full digital.
Optamos por não categorizar o atual cenário como dilemas, pois ele é dado, mas sim como um momento em que a preservação e alavancagem da autoridade epistêmica dos meios informativos em convívio com as IAGen passa por uma transição protagonizada por práticas profissionais que são exclusivas do humano, a exemplo da capacidade de contextualização e adequação de conteúdos para públicos específicos; pela humanização das narrativas por meio de engajamento da audiência; por procedimentos que re-editem a produção automatizada das ferramentas inteligentes; e para aquelas redações onde o uso de inteligência artificial esteja naturalizado a ponto da máquina personificar o jornalista, sejam aplicados os seus capitais cognitivo e intelectual para inserir o rigor e a acurácia aos conteúdos, tipicamente inerentes ao jornalista-humano.
Falamos, portanto, de uma alavancagem epistêmica guiada pelas ciências humanas, pela criatividade, por um olhar impregnado de senso crítico que a tecnologia não alcança e, mais que tudo, pela revisão da formação dos profissionais – atuais e futuros, e suas grades curriculares com a inclusão de disciplinas que abordam a Filosofia, a Sociologia, a História, a Economia, a Geopolítica, entre outras, possibilitando a construção de uma base epistêmica de convivência com os sistemas generativos na qual o humano protagonize com autoridade os processos de informação e sociabilidade, reduzindo a opacidade automatizada que hoje parece prevalecer.
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