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A discreta grandeza de Cláudio Giordano – Jornal da USP

redacao by redacao
21/06/2026
in Mundo Acadêmico
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A discreta grandeza de Cláudio Giordano – Jornal da USP
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No último dia 6 de junho, recebi a informação do falecimento de Cláudio Giordano (1939-2026). Digo “recebi”, mas a verdade é que ainda a assimilo, como quem folheia um livro raro, consciente de que cada página carrega um valor irreparável. Giordano não foi apenas um editor, foi um artífice do texto, um mediador entre mundos, alguém que compreendia o livro não como objeto, mas como destino.

Conheci nele o tradutor rigoroso, atento às inflexões mais sutis da linguagem, e o bibliófilo apaixonado, capaz de reconhecer em cada volume seu valor material e sua dimensão histórica e literária. Sua atuação como homem de cultura excedeu qualquer rótulo; era presença formadora, dessas que deixaram marcas silenciosas e duradouras. Relembrar a trajetória de Cláudio Giordano é refletir a respeito de uma ética com a palavra e com o livro que ele cultivou com discrição, erudição e rara generosidade.

Editor singular, Cláudio fez de seu ofício uma devoção. Trabalhador incansável, solitário e obstinado, empenhou-se em descobrir relíquias bibliográficas que, por vezes, imprimia e fazia circular entre os amigos. Nesse universo, destacam-se dois trabalhos notáveis, fruto de dedicação monástica, rara de encontrar no mundo hiperconectado de hoje: a tradução de Tirant lo Blanc, monumental obra de cavalaria de Joanot Martorell, agraciada com o prêmio Jabuti de melhor tradução em 1998, e a publicação da edição fac-similar da opus magnum de Aldo Manuzio, Hypnerotomachia Poliphili, com base em exemplar pertencente à coleção de José Mindlin, com tradução sua a partir de edição catalã. Vale aqui ressaltar que a edição original dessa obra (realizada por Aldo Manuzio, em 1499) constitui-se em referência obrigatória na saga da tipografia, tanto pela arte da composição quanto por incluir mais de uma centena e meia de xilogravuras. Os possuidores dessas edições têm o privilégio de apreciar as ilustrações do Hypnerotomachia em duas versões: as da edição original (1499) no exemplar fac-similado e as da tradução francesa de 1554, na edição da tradução de Cláudio Giordano, cuja qualidade é considerada superior à do incunábulo.

Fundou a Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, objetivando contribuir para a recuperação e conservação de nossa memória histórico-cultural. Nesse sentido, formou um acervo de mais de trinta mil itens (livros, revistas, jornais, documentos), que durante sete anos esteve disponível a consultas no imóvel que foi casa-ateliê de Samson Flexor; esse acervo propiciou a realização de trabalhos de conclusão de cursos acadêmicos e de pelo menos uma tese.

Tive o privilégio de participar desse processo como sócio-fundador da Oficina do Livro. Em linhas gerais, ela era uma reunião de amigos que tinham como finalidade a promoção da cultura por meio do livro, em todas as suas dimensões. Juntaram-se ao grupo, com o passar do tempo, figuras como José Mindlin e Antônio Ermírio de Moraes, cujas paixões pelo livro somente fizeram crescer o prestígio da Oficina, assim como suas colaborações eram garantia de um necessário alento financeiro para a manutenção das atividades.

Na Oficina do Livro, editou a Coleção Memória, destinada ao resgate de textos esquecidos das literaturas brasileira, portuguesa e universal. A singularidade de seu acervo residia no fato de ser formado por exemplares garimpados em sebos, complementados por outros recebidos por doação. Para Giordano, se um livro está em um sebo, ele antes pertenceu a uma biblioteca, pública ou particular, ou a alguém que o manuseou e estudou. Juntando-o com outro em uma única coleção, forma-se um caleidoscópio cultural, com exemplares oriundos de várias pessoas, o que conferiu ao seu acervo amplitude que bibliotecas comuns não têm. Na Oficina, humildes brochuras e livros populares, que muitas vezes não dispõem de lugar em uma estante, conviviam com edições raras e exemplares de primorosa tipografia. Foi justamente essa variedade única de textos que serviu de base e de inspiração para a edição do boletim O Nanico – Homeopatia Cultural e da Revista Bibliográfica e Cultural, que tinham por missão serem verdadeiros remédios para a alma.

Em dezembro de 2006, na impossibilidade de manter esse espaço, o acervo foi doado à Unicamp, em cuja Biblioteca Central se encontra disponível a estudiosos e interessados. Ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP foi doado o arquivo da correspondência passiva de Plínio Barreto (1882-1958), composto de mais de mil e duzentas cartas (em sua maioria manuscritas) de centenas de figuras proeminentes da história de São Paulo na primeira metade do século 20. Juntamente com os originais, a Oficina doou também tal acervo totalmente digitalizado, o qual pode ser consultado no instituto.

Giordano publicou ainda muitas edições artesanais e fora do comércio, produzidas em parceria com o Atelier Além do Livro, oficina de restauro e encadernação pertencente a sua filha, Patrícia Giordano. Para além da editoração, Cláudio realizou traduções para o português de obras em francês e espanhol, participando como colaborador e conselheiro editorial da livro – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição.

Sempre repito, parafraseando Roberto Calasso: “O livro de um editor é o conjunto dos livros que ele edita”. Cláudio tem várias páginas consignadas nesse meu livro imaginário. Nesse sentido, tive a felicidade de trazer a lume o sexto volume da Coleção Editando o Editor, pela Com-Arte, editora-laboratório do curso de Editoração da USP, com o perfil editorial e biobibliográfico de Giordano, de maneira que as novas gerações de editores possam se espelhar no seu exemplo.

Além da amizade e confiança, sempre fui agraciado com a imensa generosidade característica da personalidade de Cláudio Giordano. Na maioria das vezes em que fui a seu apartamento, sempre coberto de livros, era presenteado com vários volumes, muitos dos quais eu jamais teria oportunidade, tampouco conhecimento, para garimpar.

Essas obras, em várias línguas, são parte importante de minha biblioteca e fonte permanente de inspiração e de referência na arte de fazer livros, desde as mais modestas até aquelas com primoroso acabamento editorial e rica encadernação. Não raro, faço planos para utilizá-las em novas edições ou aproveitar determinado recurso tipográfico em livros de temáticas similares. Um dos exemplos mais notáveis é o Monstrorum Historia, de Ulisse Aldrovando, um belo livro repleto de elaboradas ilustrações, com tipografia primorosa, impresso em 1642, com encadernação em pergaminho, com que Cláudio me presenteou em um momento especialmente delicado em minha vida, quando deixei a presidência da Edusp.

Talvez reste, diante da ausência de Cláudio Giordano, um gesto que ele próprio aprovaria: voltar aos livros, não apenas como refúgio, mas como continuidade. É no cuidado com os detalhes, na leitura silenciosa do que foi pensado antes de nós que algo dele permanece. E se hoje sua falta se impõe com tanta nitidez é porque também foi nítida a forma como ele esteve entre nós.

Obrigado, Cláudio!

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Fonte https://jornal.usp.br/artigos/a-discreta-grandeza-de-claudio-giordano/

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