Há uma parte da Universidade que raramente ocupa o centro das atenções. Não aparece nas cerimônias de formatura, nas inaugurações, nas publicações científicas nem nas notícias sobre grandes descobertas.
Trabalha longe dos holofotes, para que laboratórios funcionem, bibliotecas permaneçam abertas, árvores sejam cuidadas, equipamentos operem, sistemas estejam disponíveis e estudantes, docentes, pesquisadores e pacientes encontrem uma estrutura capaz de cumprir sua missão.
É uma presença tão constante que acaba se tornando invisível. Foi preciso que um dos maiores desastres ambientais já registrados em Ribeirão Preto interrompesse a rotina da USP para que essa engrenagem humana pudesse ser vista em toda a sua dimensão.
O vendaval do dia 24 de julho derrubou centenas de árvores, destruiu telhados, rompeu redes elétricas, interrompeu serviços essenciais e colocou em risco o funcionamento de atividades de ensino, pesquisa, extensão e assistência. Diante de um cenário de emergência, a resposta não veio apenas de equipamentos, caminhões ou motosserras. Ela veio, sobretudo, das pessoas.
Na Prefeitura do Campus, praticamente todos os setores foram mobilizados. Equipes de Parques e Jardins, Manutenção Elétrica e Hidráulica, Manutenção Predial, Transportes, Informática, Administração, Biblioteca, Biotério, Alimentação, Atendimento Social, Moradia Estudantil, Práticas Esportivas, Segurança, Vigilância e diversas outras áreas reorganizaram completamente suas rotinas para enfrentar uma situação inédita. Em alguns serviços, as jornadas se estenderam das primeiras horas da manhã até o fim da noite durante vários dias consecutivos.
A mobilização, entretanto, ultrapassou os limites da Prefeitura do Campus. Em cada faculdade, instituto e órgão da Universidade, diretores, assistentes técnicos, equipes administrativas, servidores da informática, profissionais da infraestrutura, setores de compras e finanças, trabalhadores da limpeza, próprios e terceirizados, passaram a resolver problemas que, até poucos dias antes, sequer existiam. Cada unidade encontrou suas prioridades, mas todas compartilharam o mesmo compromisso: permitir que a Universidade retomasse seu funcionamento.
Talvez esse tenha sido o aspecto mais significativo daqueles dias. As divisões administrativas deixaram de ser barreiras. Pessoas assumiram tarefas que normalmente não faziam, ajudaram outras equipes, reorganizaram espaços, removeram galhos, improvisaram soluções, acompanharam fornecedores, garantiram energia para equipamentos essenciais, protegeram acervos, preservaram pesquisas, acolheram estudantes e restabeleceram serviços indispensáveis. A especialidade de cada um continuou importante, mas, diante da emergência, prevaleceu um objetivo comum.
Muito se fala, hoje, sobre uma suposta perda do compromisso com o serviço público. Costuma-se dizer que os servidores de antigamente “vestiam a camisa” e que esse sentimento teria desaparecido com o tempo. Os acontecimentos da última semana contam outra história.
Sem discursos, sem protagonismo e, muitas vezes, sem sequer aparecer nas fotografias da cobertura jornalística, centenas de profissionais fizeram exatamente aquilo que se espera de uma instituição pública comprometida com a sociedade: trabalharam além do previsto porque compreenderam que havia algo maior a preservar.
Não se tratava apenas de recuperar edifícios. Era preciso garantir experimentos científicos, proteger animais de pesquisa, manter serviços de saúde, assegurar alimentação aos estudantes, preservar bibliotecas, restabelecer laboratórios e permitir que milhares de pessoas retomassem suas atividades com segurança.
A Universidade costuma ser reconhecida pela excelência de seus pesquisadores, professores e estudantes. É justo que seja assim. Mas momentos como esse lembram que a excelência acadêmica depende de uma rede muito mais ampla, formada por profissionais de diferentes áreas que sustentam silenciosamente o cotidiano institucional.
Quando tudo funciona, quase ninguém percebe sua presença. Quando tudo para, descobre-se que a Universidade também é construída por mãos que raramente aparecem. E, talvez, seja justamente essa a maior demonstração de compromisso: trabalhar de forma tão eficiente que o próprio trabalho passe despercebido, até que um dia a realidade revele o quanto ele sempre foi indispensável.
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Fonte https://jornal.usp.br/artigos/as-maos-invisiveis-que-sustentam-a-universidade/







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