O problema era que o artista não tinha dinheiro para comprar os materiais para fazer obras do jeito que desejava. “Por serem línguas, que são faladas, também pensei em transformar a ideia em uma performance artística. Mas isso estava na moda, especialmente no Brasil. Decidi que usar essa linguagem, por ser o novo ‘estilo’, roubaria a força que ela poderia ter. E assim esse trabalho veio me perseguindo a vida toda”, relata.
Por se tratar de uma produção pautada na língua, escolheu três livros que considera significativos na história da arte como inspiração: Libro de la vida (1562-1565), de Santa Teresa de Ávila, What I Believe (1925), de Bertrand Russell, e Hino a Hermes (entre os séculos 7 e 6 a. C.), de Homero. O último, no entanto, é o mais recorrente na exposição. “O poema é enorme, tem quinhentos e tantos versos, eu escolhi oito. E para você entendê-los precisa saber que Hermes era um cara muito inteligente, mas passava a perna em todo mundo.”
A história começa com o nascimento do deus grego dos viajantes, do comércio e das linguagens, Hermes, filho do rei dos deuses, Zeus. Na mitologia grega, os deuses não nascem bebês, mas sim figuras com corpos adultos. Nesse caso, Hermes nasce dentro de uma caverna e a primeira coisa que faz ao sair é roubar as vacas de seu irmão Apolo, deus da música e do Sol. Por isso, é repreendido por Zeus, que o manda retornar. No meio do caminho, é interrompido por uma tartaruga e percebe que o casco dela poderia ser usado para criar um instrumento musical quando combinada às cordas intestinais de um cordeiro. Assim, surge a cítara.
“Na minha visão, ao criar um instrumento para gerar som e transformar este som em música, ele inventou a arte”, conta. A tartaruga é retratada em diversas das peças e, inclusive, nomeia uma delas, Tartaruga de Homero (2024): uma série de impressões fotográficas de um homem de camisa branca e calça jeans, segurando uma tartaruga na lateral do corpo com escritos na frente. Apoiadas nos quadros, há estacas de metal e, na frente, um penduricalho de cobre.
Fonte https://jornal.usp.br/cultura/exposicao-entrelaca-linguagens-artisticas-e-idiomas/






