Pesquisa da USP mostra que a concentração de escolas nos centros urbanos obriga estudantes a longos deslocamentos, migração ou abandono dos estudos
Uma pesquisa de doutorado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP revela que a maior parte das escolas do Pará está concentrada nos grandes centros urbanos. Essa realidade obriga muitos jovens a migrarem para localidades onde há oferta de ensino ou até mesmo a abandonarem os estudos quando não conseguem realizar esse deslocamento.
Embora o Pará seja um dos estados brasileiros com maior população vivendo em áreas rurais, 90 dos 144 municípios não possuem escolas localizadas no campo ou em áreas de floresta. Segundo Felipe Garcia Passos, autor da tese desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana, a responsabilidade por garantir o acesso à educação acaba recaindo sobre as famílias. Esse esforço, explica o pesquisador, é denominado “esforço espacial”.
O custo de estudar longe de casa

Entre as alternativas encontradas para atender esses estudantes estão programas de ensino remoto com aulas gravadas em Belém. Para Felipe, esse modelo desconsidera a diversidade das comunidades atendidas.
“Esse programa vai dialogar com mais de 400 alunos em uma aula de Geografia, por exemplo, alcançando mais de 400 comunidades. Não há interação entre os alunos e o professor, e a aula é padronizada. Essas realidades são muito distintas. O professor que ministra essa aula não conhece a realidade de cada uma das comunidades. Isso tem impactos na vivência desses estudantes em seus territórios, porque o conteúdo não dialoga com suas dinâmicas sociais e ambientais”.
Outra modalidade identificada pela pesquisa é a atuação de professores itinerantes, que percorrem as comunidades oferecendo, em módulos intensivos, conteúdos previstos para um período letivo muito maior. Como esses docentes retornam apenas no ano seguinte, os estudantes permanecem meses sem acompanhamento da disciplina, o que, segundo o estudo, compromete a consolidação da aprendizagem.
Gestão da educação deve considerar o território
De acordo com Passos, a combinação entre modalidades de ensino precárias, longos deslocamentos e evasão escolar aprofunda as desigualdades entre campo e cidade. Em muitos casos, os estudantes passam horas utilizando mais de um meio de transporte para chegar à escola mais próxima. Além do desgaste, esse cenário prejudica o processo de aprendizagem e dificulta o acesso ao ensino superior.
A pesquisa também defende que a gestão da educação incorpore a dimensão territorial na formulação de políticas públicas. Para o pesquisador, os longos deslocamentos representam uma barreira ao direito à educação, sobretudo para estudantes de famílias de baixa renda. Por isso, o estudo propõe que a distribuição das escolas seja planejada considerando as características dos territórios e as condições reais de acesso da população ao ensino.
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