Como acontece a cada quatro anos, vivemos mais uma temporada de Copa do Mundo de Futebol. Durante algumas semanas, a atenção do mundo volta-se para os gramados da América do Norte, para os atletas e para as narrativas que se constroem em torno deles. As competições produzem heróis, consagram trajetórias, alimentam sonhos coletivos e reafirmam a capacidade singular do esporte de mobilizar emoções em escala global.
Passado o primeiro quarto da competição, seguindo a tendência de fatiar o espetáculo para atender aos tantos interesses que transcendem a competição, já é possível avaliar as tendências dessa Copa que se realiza em três países vizinhos, nem por isso afins, com culturas, políticas e posturas sobre as coisas do mundo distintas. Marcada pela multiplicação de jogos e pelo reforço de uma narrativa de entretenimento, a Copa de 2026 já deixa sua marca para a história como uma das competições de futebol menos emocionantes do último século. E isso decorre, obviamente, do distanciamento daquilo que eterniza o esporte que é a performance de atletas, e não de detalhes sórdidos da vida privada dos protagonistas do espetáculo esportivo ou de suas esposas e outros familiares. A presente Copa é a prova maior da falta de pregnância mítica a que o esporte foi deslocado.
Explico melhor. O esporte é um dos fenômenos da sociedade contemporânea que possibilitam a vivência do arquétipo do herói, presente em todos os grupos sociais e fundantes de nosso psiquismo – conforme a teoria junguiana – e, por meio dele, possibilita uma espécie de transcendência ou imortalidade. Basta ver toda a construção narrativa em torno de jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo ou Mbappé na primeira rodada do presente campeonato. O fato de serem atletas de impacto global, ou por receberem rendimentos incalculáveis, não os faz dignos de tanta atenção. O que cerca o interesse por suas atuações é o fato de que eles excedem, principalmente os dois primeiros, a média de outros jogadores em resultados e, mas não necessariamente, vitórias.
Sobreviver a um ciclo de quatro anos, submetendo corpos finitos e falíveis a exigências pouco comuns aos seres humanos médios, a plebe vil e ignara que deseja do fundo de suas almas ser capaz de realizar minimamente um gesto técnico que se aproxime de um drible, de um passe ou de um gol realizado no gramado, é o que faz tantas nações deste planeta parar ao longo dos antigos 90 minutos de uma partida. Messi e Cristiano Ronaldo materializam a divinização do humano tendo os pés como o agente dessa transmutação. Já não falo aqui na afirmação de identidades nacionais, como se falou ao longo de décadas, nem tampouco do ópio do povo. Foi-se o tempo em que o futebol e outras modalidades esportivas atendiam a essas necessidades. No contemporâneo a lógica que faz a máquina do esporte ativar é tão complexa quanto se tornou todo o mundo e nossa subjetividade. E é justamente o afastamento do humano que me chama a atenção neste campeonato do mundo. Ao que tudo indica, questões de outra ordem invadiram esse campo, razão maior pelo desinteresse, e pela torcida contra, de tantos.
É um risco demasiado alto para o esporte substituir a identificação do torcedor com as habilidades dos atletas pelas banais questões cotidianas extracampo e extrajogo que todos vivemos na imensidão de nossa pequenez. Seria um prejuízo enorme para a humanidade perder a possibilidade de consagrar com todas as devidas vênias atuações que levam aos rompantes físicos dos espectadores seja nos sofás ou arquibancadas. Atletas materializam como poucos outros profissionais a divinização do humano.
Penso que é sempre tempo de reafirmar que o esporte sem atletas é apenas uma abstração. A humanização desse fenômeno se dá com a presença dos jogadores que provam suas existências por meio de habilidades incomuns e desejadas pelas pessoas que assistem e vibram com a realização desses feitos. Entretanto, são inúmeras as exigências impostas aos atletas de nível global. O peso simbólico da camisa que representa um clube, uma cidade ou uma nação; o risco permanente de lesões capazes de interromper carreiras construídas ao longo de décadas; a pressão por resultados imediatos; a exposição constante ao julgamento público; a necessidade de manter elevados níveis de desempenho; a busca incessante pela perfeição em uma atividade inevitavelmente sujeita ao erro; e a experiência recorrente da derrota constituem apenas parte das demandas enfrentadas diariamente. Em uma única competição, anos de preparação podem ser reduzidos a alguns minutos ou segundos capazes de definir o destino de uma carreira.
E o jogo de luz e sombra segue pelas próximas semanas. Enquanto Vini Jr. afirma sua condição solar com gols e passes que levam a gols, Rafinha experimenta a sombra da incerteza de uma lesão que pode tirá-lo da competição, expondo aspectos fundamentais da condição humana, como a vulnerabilidade, o medo, a dúvida, a tristeza ou o sofrimento.
Humanizar o atleta significa reconhecer que a excelência esportiva não elimina a todas as mazelas da condição humana. Significa compreender que o sujeito capaz de produzir momentos extraordinários também convive com limitações, conflitos e fragilidades. Significa abandonar a visão simplista que reduz o indivíduo a seus resultados e reconhecer a complexidade de uma existência construída dentro e fora do ambiente esportivo.
Dado esse pontapé inicial, em breve voltamos a falar nos impactos da transformação dos protagonistas do espetáculo esportivo em agentes de interesses extraesporte.
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Fonte https://jornal.usp.br/articulistas/karia-rubio/humanos-porem-atletas/






