Apesar de Santa Rita Durão ser referência da literatura colonial e árcade brasileira, seu canto em Caramuru, de 1781, antecipou características do Romantismo indianista no Brasil, movimento voltado para a construção do indígena e da natureza como símbolos da identidade nacional. A epopeia conta a tragédia da indígena Moema, que morre no mar tentando alcançar a nado o navio no qual seu amante, Diogo, parte com a esposa Paraguaçu. O poema celebra a colonização e a conversão dos povos nativos ao catolicismo, e a partida de Diogo com Paraguaçu representa o triunfo dos valores ocidentais cristãos. A personagem Moema, por outro lado, concentra a ambígua representação da “natureza selvagem”, romântica, indomável e rebelde, ao mesmo tempo frágil e irracional. O arrebatamento de Moema simboliza o destino dos indígenas que resistiram ou que não se adequaram ao projeto colonizador da dominação religiosa europeia.
No quadro – atualmente parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) -, o exagero do poema dá lugar à contenção, demonstrando certo cuidado com doutrinas do catolicismo da época. A obra não é, por si só, de intenções religiosas, no entanto, se comparada à Primeira Missa do Brasil, também de Meirelles, notam-se, nesta, cores azuladas, como a representação de uma nação abençoada pela Igreja, em contraste com Moema, de dimensão trágica e tom avermelhado. “Seguindo a fábula épica de Caramuru, podemos inferir que não há outro destino para uma indígena que rejeita a fé católica senão a morte”, interpreta Miyoshi.
Fonte https://jornal.usp.br/cultura/livro-da-editora-da-usp-revive-moema-de-victor-meirelles/







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