Existe uma narrativa persistente segundo a qual o avanço científico depende principalmente da concentração de recursos, de infraestrutura e de massa crítica em grandes centros de excelência. Essa narrativa contém elementos verdadeiros. Sistemas científicos altamente estruturados produzem uma enorme quantidade de conhecimento, atraem talentos, desenvolvem tecnologia sofisticada e geram redes globais de cooperação. No entanto, parece haver um paradoxo pouco discutido: frequentemente é nas periferias que surgem as ideias mais disruptivas.
Essa observação parece contraditória à primeira vista. Em sistemas complexos, a estabilidade excessiva pode reduzir a variabilidade. Centros científicos consolidados tendem naturalmente a desenvolver mecanismos de autorregulação intelectual. Paradigmas dominantes organizam o financiamento, a publicação, a avaliação e a reputação acadêmica. A ciência torna-se mais eficiente, mas também progressivamente mais previsível.
As periferias funcionam de maneira diferente. Elas possuem menos recursos, menos estabilidade institucional e menor capacidade de competir diretamente com grandes centros em volume de produção. Mas, exatamente por isso, tendem a operar com maior liberdade conceitual. Nas bordas do sistema, há mais espaço para combinações inesperadas, abordagens híbridas e perguntas que não se encaixam perfeitamente nas agendas centrais.
Talvez possamos dizer que, em certo sentido, os centros maximizam a eficiência, enquanto as periferias maximizam a variabilidade. Essa diferença é importante porque sistemas complexos frequentemente dependem de variabilidade para produzir emergência. Analogicamente à biologia, ecossistemas diversos são mais resilientes justamente porque oferecem múltiplas possibilidades de reorganização. Algo semelhante parece ocorrer nos sistemas científicos.
Grandes ideias muitas vezes surgem em regiões de instabilidade. A própria história da ciência oferece exemplos icônicos. Mendel desenvolveu as bases da genética praticamente isolado em um mosteiro. Wegener propôs a deriva continental à margem da geologia dominante de sua época. Barbara McClintock permaneceu, durante décadas, relativamente periférica antes que suas ideias sobre elementos transponíveis fossem plenamente reconhecidas. Mesmo Einstein, frequentemente associado ao centro da física moderna, publicou seus artigos revolucionários enquanto trabalhava fora do ambiente universitário tradicional.
A emergência intelectual parece possuir afinidade estrutural com zonas menos rigidamente organizadas. Isso não significa romantizar a precariedade científica. A ausência de infraestrutura limita enormemente a produção de conhecimento. Mas há diferença entre reconhecer a importância dos centros e imaginar que a inovação radical emerge apenas deles.
O problema talvez esteja na própria arquitetura contemporânea da ciência global. O sistema acadêmico internacional passou a operar cada vez mais por meio de mecanismos de competição intensiva. Publicação, financiamento e reputação são organizados em torno de métricas que favorecem a convergência. Pesquisadores aprendem rapidamente quais perguntas são financiáveis, quais metodologias são publicáveis e quais narrativas têm maior probabilidade de serem aceitas. Esse processo aumenta a produtividade em termos absolutos, mas pode reduzir a diversidade conceitual.
A ciência passa, então, a funcionar como um sistema altamente otimizado para a expansão incremental do conhecimento existente, mas menos eficiente em relação a rupturas paradigmáticas. Essa talvez seja uma explicação para a drástica diminuição observada na disrupção da ciência nos últimos anos, que mencionei num dos ensaios anteriores desta coluna.
As periferias ocupam uma posição ambígua nessa dinâmica. Por um lado, sofrem severas limitações estruturais. Por outro lado, mantêm graus relativamente maiores de liberdade epistemológica. Pesquisadores periféricos frequentemente transitam entre áreas, combinam metodologias heterogêneas e formulam perguntas moldadas por experiências locais específicas.
No caso brasileiro, isso é particularmente evidente. O Brasil nunca esteve plenamente integrado ao núcleo histórico da ciência global. Sua posição periférica gerou limitações, mas também produziu agendas próprias. Agricultura tropical, bioenergia, biodiversidade, florestas tropicais e mudanças climáticas em ecossistemas tropicais tornaram-se áreas nas quais a experiência concreta do território brasileiro gerou perspectivas originais. Em contrapartida, a cultura da ciência brasileira continua mirando os grandes centros (EUA e Europa), criando a imagem de que o bom pesquisador é aquele que se alia a eles, desvalorizando e limitando jovens cientistas que se mantêm ligados a grupos que desenvolveram uma cultura local.
A cana-de-açúcar talvez seja um bom exemplo de desenvolvimento local. Durante décadas, grande parte da ciência energética internacional permaneceu organizada em torno de sistemas de combustíveis fósseis ou de biocombustíveis moderados. O desenvolvimento brasileiro do etanol tropical ocorreu, em parte, à margem dessas agendas centrais. Este é um caso em que a periferia produziu uma solução energética que, posteriormente, ganhou relevância global. Há 30 anos, um motor que funcionasse com álcool e gasolina em qualquer proporção era ficção para a maioria. Hoje, é parte da vida de todos os brasileiros.
Isso também pode ser dito da pesquisa sobre biodiversidade tropical. Ecossistemas como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica não são apenas objetos de estudo científico. Eles funcionam como ambientes geradores de novas perguntas. A experiência de trabalhar em sistemas ecológicos extremamente complexos frequentemente exige abordagens interdisciplinares que os centros tradicionais demoraram mais a incorporar. Talvez exista aí uma relação profunda entre a diversidade biológica e a diversidade cognitiva. O desenvolvimento da parte da ciência brasileira que dá origem ao que hoje chamamos de bioeconomia, vem dessa linha de pensamento, iniciada por cientistas brasileiros na década de 1980.
Regiões periféricas frequentemente convivem simultaneamente com múltiplas temporalidades, culturas e formas de organização social. Isso produz maior heterogeneidade semiótica. Ideias circulam entre diferentes sistemas simbólicos, gerando combinações menos previsíveis.
Com esses argumentos não quero dizer que devamos desprezar os contatos com os grandes centros. O desafio está em equilibrar a inserção internacional e a autonomia intelectual.
Nas grandes metrópoles científicas globais ocorre frequentemente uma forte convergência cultural e metodológica e, por isso, essa discussão torna-se ainda mais relevante em um contexto em que a ciência global passou a operar sob intensa concentração.
A distribuição da produção científica segue algo muito próximo da Lei de Pareto. Uma pequena parcela de instituições e regiões (cerca de 20%) concentra a maior parte (cerca de 80%) dos artigos, das citações e dos financiamentos. Isso ocorre tanto em nível mundial quanto em cada país. No Brasil, o Sudeste concentra a maior parte da ciência e da inovação, e o mesmo ocorre no Estado de São Paulo. Paradoxalmente, mesmo ocupando posição dominante na ciência latino-americana, São Paulo frequentemente continua buscando legitimidade intelectual fora de suas próprias fronteiras.
O problema é que sistemas excessivamente concentrados podem tornar-se estruturalmente frágeis. Isso ocorre porque ecossistemas homogêneos tendem a perder resiliência. Mercados excessivamente centralizados tornam-se vulneráveis a colapsos sistêmicos. Talvez os sistemas científicos também necessitem de diversidade territorial e cognitiva para manter a capacidade adaptativa.
Isso muda a forma de pensar sobre políticas científicas. Durante muito tempo, acreditou-se que o principal objetivo deveria ser reproduzir nas periferias o modelo organizacional dos grandes centros. Mas talvez isso seja insuficiente. Não basta copiar estruturas centrais. É necessário preservar a diversidade epistemológica. Se possível, até fortalecê-las. Em outras palavras, a questão talvez não seja como transformar periferias em cópias imperfeitas do centro, mas como permitir que as periferias produzam formas próprias de conhecimento.
Isso exige uma mudança cultural significativa. Durante décadas, grande parte da ciência latino-americana foi organizada em torno de um sentimento implícito de atraso. A periferia era vista como um espaço que precisava alcançar o centro; um pensamento, de certa forma, colonialista. Pouco se discutia a possibilidade de que justamente sua posição periférica pudesse gerar vantagens cognitivas específicas.
A emergência frequentemente nasce da tensão entre sistemas distintos. Pesquisadores periféricos convivem simultaneamente com referências globais e realidades locais. Essa posição intermediária gera desconforto intelectual, mas também potencial criativo. Muitas vezes, é precisamente essa sensação de inadequação que leva ao surgimento de novas perguntas.
Talvez possamos compreender a periferia não apenas como posição geográfica ou econômica, mas também como condição epistemológica.
A ciência periférica opera em zonas de tradução. Ela precisa reinterpretar continuamente teorias produzidas em outros contextos e adaptá-las às realidades próprias. Esse processo gera ruído. Mas ruído, em sistemas complexos, pode produzir emergência.
Não quero, aqui, negar a importância da excelência científica tradicional. Grandes laboratórios continuarão sendo fundamentais. O problema surge quando os sistemas científicos se tornam excessivamente homogêneos.
A inovação radical raramente surge de ambientes completamente estáveis, já que a manutenção da estabilidade é, em essência, contrária à produção de novidades que causam turbulência nos sistemas.
No fundo, talvez a ciência funcione de maneira semelhante à evolução biológica. O processo de “seleção natural” favorece a eficiência local, mas a diversidade mantém aberto o espaço para possibilidades futuras.
O problema não está em colaborar com centros de excelência. A ciência sempre foi internacional. O problema surge quando a cooperação se transforma em dependência epistemológica. Nesse momento, pesquisadores deixam de formular perguntas a partir de seus próprios contextos e passam a reproduzir agendas definidas em outros contextos históricos, sociais e ecológicos. A periferia deixa, então, de ser uma posição geográfica e passa a ser uma condição mental.
As bordas da ciência importam porque ampliam o repertório de perguntas que a humanidade é capaz de formular, com a possibilidade de que seja justamente nelas, onde os sistemas ainda permanecem parcialmente instáveis, que parte importante do futuro intelectual continue a surgir.
________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)
Fonte https://jornal.usp.br/articulistas/marcos-buckeridge/nas-bordas-do-conhecimento/







