No artigo anterior, propus que o carbono está muito longe de ser um vilão. Isso por dois motivos principais: que, ao contrário, ele é a matéria-prima da vida e que o verdadeiro problema não está no elemento químico em si, mas na maneira como alteramos o seu ciclo.
Isso nos leva a uma pergunta: como chegamos até aqui? A resposta mais simples seria dizer que tudo começou com a Revolução Industrial e com o uso intensivo de combustíveis fósseis. Embora haja verdade nisso, essa explicação é insuficiente. Ela descreve o que aconteceu, mas não explica por quê.
Se o carbono tornou possível nossa própria existência, talvez ele também tenha algo a nos ensinar sobre a maneira como produzimos conhecimento. Para compreender essa ideia, vale a pena olhar essa história sob outra perspectiva.
Durante centenas de milhares de anos, nossa espécie aprendeu a observar a natureza. Tornamo-nos animais simbólicos, aprendemos a dominar o fogo, a fabricar ferramentas, a cultivar plantas, a construir cidades e, mais recentemente, a compreender as leis físicas e químicas que governam o universo. A ciência foi uma consequência natural e, ao mesmo tempo, um meio de satisfazer essa curiosidade profundamente humana instalada em nossos cérebros.
A Revolução Industrial representou um dos momentos importantes dessa trajetória. Depois de muito tempo queimando madeira, pela primeira vez, passamos a explorar, em larga escala, a energia acumulada ao longo de milhões de anos nos combustíveis fósseis. Gradativamente, mas de forma relativamente rápida, no século 20, o petróleo e o gás natural passaram a mover máquinas, produzir eletricidade, transportar pessoas e mercadorias e transformar completamente a economia mundial. O que ocorreu na transição do uso de carvão para o petróleo e o gás foi uma transferência da forma de usar carbono. Só passamos a usá-lo a partir de hidrocarbonetos (cadeias de carbono) provenientes do subsolo, e não apenas da superfície terrestre.
Os resultados dessa transição foram impressionantes. Com a capacidade de obter energia a partir das ligações entre os átomos de carbono, a ciência floresceu. A expectativa de vida aumentou. A produção de alimentos cresceu de forma extraordinária. A medicina moderna reduziu a mortalidade infantil e aumentou a longevidade humana. A ciência acelerou o desenvolvimento de novos materiais, medicamentos, sistemas de comunicação e tecnologias que mudaram profundamente nossa forma de viver. Em poucas gerações, a humanidade aprendeu tanto e tão rápido que permitiu transformações sequer imaginadas por nossos antepassados.
Mas há um aspecto curioso nesta história. Enquanto aprendíamos a dominar cada vez melhor a energia e os materiais de carbono, ainda compreendíamos muito pouco sobre o funcionamento do próprio planeta. Não conhecíamos o ciclo global do carbono, a dinâmica da atmosfera ou o delicado equilíbrio entre oceanos, florestas, solos e clima. Em outras palavras, aprendemos primeiro a mover enormes quantidades de carbono e só muito mais tarde começamos a compreender as consequências desse movimento.
Essa sequência não deveria nos surpreender. É assim que o conhecimento humano normalmente evolui. Primeiro descobrimos novas possibilidades. Depois aprendemos a utilizá-las. Somente com o tempo passamos a compreender seus efeitos mais amplos. A história da ciência está repleta de exemplos semelhantes. Cada grande descoberta abre novas oportunidades, mas também novas perguntas.
Foi exatamente isso que aconteceu com o carbono e, nesse sentido, o petróleo não pode ser considerado um erro da humanidade. Ele está entre as maiores descobertas energéticas da história humana, comparável, em muitos aspectos, ao domínio do fogo. Graças ao petróleo, a sociedade moderna alcançou níveis sem precedentes de desenvolvimento científico, tecnológico e econômico. A ironia é que esse mesmo desenvolvimento criou os instrumentos que nos permitiram perceber algo antes invisível: a atmosfera terrestre estava mudando.
Essa talvez seja uma das características mais fascinantes da ciência. Ela não apenas possibilita a produção de novas tecnologias, mas também amplia continuamente nossa capacidade de enxergar o mundo. Os instrumentos científicos funcionam como extensões dos nossos sentidos. Telescópios revelam galáxias distantes. Microscópios revelam células e suas estruturas subcelulares. Satélites revelam o funcionamento do planeta como um todo. Modelos matemáticos revelam processos que nenhuma pessoa poderia perceber apenas pela experiência cotidiana. E agora, a inteligência artificial generativa estende ainda mais a nossa capacidade cognitiva.
Foi graças a essa extraordinária expansão do conhecimento que compreendemos, ao longo do século 20, que a atmosfera também faz parte de uma espécie de grande “sistema vivo” e dinâmico. Descobrimos que o carbono circula continuamente entre a biosfera, os oceanos, os solos e a atmosfera. Descobrimos também que nossa capacidade de extrair e queimar combustíveis fósseis havia acelerado esse ciclo muito além da velocidade com que os sistemas naturais conseguiam absorver esse carbono adicional.
Essa descoberta mudou completamente a natureza do problema. Pela primeira vez, a humanidade percebeu que suas ações podiam ter consequências em escala planetária. Não se tratava mais apenas de administrar rios, florestas ou cidades. Era necessário compreender o funcionamento integrado do sistema terrestre.
Costuma-se dizer que entramos na era das mudanças climáticas. Talvez exista outra forma de interpretar esse momento. Estamos entrando na era da consciência planetária. Pela primeira vez, uma espécie consegue observar o impacto coletivo de suas próprias ações nos ciclos naturais dos quais depende para existir.
Isso não significa que tenhamos chegado ao fim da nossa jornada. Talvez estejamos apenas no início de uma nova etapa. Durante os últimos dois séculos, fomos capazes de transformar a natureza. Nessa empreitada, os seres humanos provocaram consequências que lhes causaram malefícios. Ao expandir as cidades, a agricultura e, posteriormente, ao utilizar carvão para sustentar a industrialização, tivemos de derrubar árvores e dizimar florestas. A consequência, como nós agora sabemos, é a mudança do clima e a perda de biodiversidade. Já no século 20, o uso intensivo do petróleo começou a afetar o ciclo do carbono e, novamente, a produzir efeitos colaterais incômodos, entre eles o aquecimento global. O desafio do século 21 será aprender a fazer algo ainda mais difícil: usar esse mesmo conhecimento para restabelecer o equilíbrio dos ciclos que sustentam a vida.
Essa talvez seja mais uma demonstração do avanço da inteligência da nossa espécie. A compreensão de como usar compostos de carbono em todos os níveis e, agora, a conscientização sobre seus efeitos colaterais, são provavelmente mais um degrau no avanço incrível que o Homo sapiens tem feito neste planeta.
Talvez este momento traga uma lição importante. Precisamos pensar bem e tentar prever as consequências de cada passo dado nas implantações de novas tecnologias em todo o mundo. Com uma população se aproximando de uma dezena de bilhões de pessoas, não é tarefa trivial lidar com tamanha consciência coletiva. Não creio que seja impossível, mas certamente muito difícil. Tudo isso não significa voltar ao passado, nem renunciar ao progresso, mas compreender que toda forma de desenvolvimento precisa aprender a dialogar com os processos naturais dos quais fazemos parte. Uma conscientização coletiva em um animal profundamente social, como o H. sapiens, representa um passo simbólico de proporções gigantescas. Mas estamos começando a pensar individualmente e coletivamente sobre isso, e a boa notícia é que a mesma curiosidade que nos trouxe até aqui e que, inclusive, nos fez aprender sobre o carbono continua sendo nossa maior aliada. Foi essa curiosidade que nos permitiu compreender o problema. Muito provavelmente, será ela quem nos permitirá encontrar as soluções.
Pode ser que o carbono nunca tenha sido o problema. Talvez tenha sido o professor que precisávamos para compreender que toda tecnologia altera o mundo e que toda inteligência verdadeira aprende, cedo ou tarde, a assumir as consequências do próprio conhecimento.
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Fonte https://jornal.usp.br/articulistas/marcos-buckeridge/o-carbono-como-professor/

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