Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
O conceito é o que impede o pensamento de ser uma simples opinião, um conselho, uma discussão, uma tagarelice.
(Gilles Deleuze)
Comecemos por estabelecer uma analogia.
Quem estuda as práticas letradas luso-brasileiras (tratados, cartas, sermões, poemas, ensaios filosóficos etc.) que circularam entre os séculos 16 e 18 reconhece a importância dos manuais de retórica e poética, indispensáveis quando a ideia é situá-los historicamente e precisar os variados gêneros em prosa ou verso – sejam aqueles relacionados à performance oratória (deliberativo, judiciário, demonstrativo), sejam aqueles seguidos pelos poetas (épico, lírico, satírico).
Recorro a estas duas tripartições, que caracterizam respectivamente a arte da persuasão e a arte da composição, para recordar que algo similar acontece no pequeno-grande mundinho dos eventos acadêmicos. Por incrível que pareça, nem sempre algumas distinções são percebidas pela comunidade. Para facilitar esse trabalho, elenquemos as principais modalidades discursivas praticadas por ocasião de bancas, seminários, jornadas, congressos e congêneres.
• Pôster > Trabalho-síntese sob a forma de cartaz (em formato e diagramação pré-estabelecida pela instituição promotora). O expositor atende a eventuais dúvidas do público em geral.
• Comunicação (atividade de um Simpósio, Grupo de Pesquisa ou de Sessão Autônoma)> Apresentação que descreve o andamento (ou a finalização) de uma pesquisa, com duração aproximada de 15 a 20 minutos.
• Exposição (Mesa-Redonda) > Apresentação, nos moldes da Comunicação, mas com duração aproximada de 30 minutos.
• Arguição (Bancas) > Comentário mais detido sobre a monografia ou tese de um candidato da pós-graduação strictu sensu (mestrado ou doutorado). De maneira geral, estipula-se que a intervenção do arguidor dure 30 minutos.
• Palestra > Fala de aproximadamente 45 a 60 minutos que prevê perguntas e colaborações do auditório, ao final.
• Conferência de Abertura ou de Encerramento > Exposição, com cerca de 1 hora a 1 hora e meia de duração, a cargo de um(a) convidado(a) que é considerado(a) referência, autoridade, na(s) matéria(s) em questão.
• Aula Magna > Segue os moldes da Conferência, inclusive no que diz respeito ao tempo de duração. De maneira geral, é ministrada por um(a) professor(a) externo à instituição ou por um docente local de longeva carreira, cujos estudos resultam em grande impacto nos estudos sobre determinados temas.
Talvez pareça mesquinho diferenciar essas e outras modalidades discursivas. Mas, de modo contrário, a questão pode ser sensível e provocar mal-estar. Afinal, quando se nomeia toda e qualquer fala, por menos densa ou pretensiosa que seja, como Conferência ou Palestra, tendemos a provocar uma expectativa no auditório que nem sempre corresponde ao teor e à abordagem a ser conduzida pela pessoa convidada.
Banalizar as diferenças que há entre os gêneros literários ou entre os tipos discursivos parece ser sintoma de que a ansiedade por acrescentar uma linha no currículo se tornou tão ou mais relevante que a experiência de falar fluentemente (e com propriedade) sobre determinados temas para diferentes públicos – homogêneos ou heterogêneos.
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