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Quando as instituições viram estúdio – Jornal da USP

redacao by redacao
06/08/2026
in Mundo Acadêmico
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Quando as instituições viram estúdio – Jornal da USP
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Por Kleber Carrilho, pesquisador na Universidade de Helsinki e doutor em Comunicação Social pela USP


Com as eleições chegando, as discussões sobre política passam a ocupar o dia a dia, mesmo das pessoas que estão mais preocupadas com outras questões. A política passa a aparecer nas conversas e a ficar mais constante nos grupos de mensagens, nas redes sociais e nos vídeos que chegam ao celular, muitas vezes sem que se procure por eles.

Com o desenvolvimento do ambiente digital e, mais recentemente, com as inteligências artificiais generativas disponíveis para grande parte da população, observar cientificamente as discussões e o discurso político tornou-se um desafio ainda maior.

Isso porque, para quem desenvolve essa atividade de pesquisa, as abordagens metodológicas anteriores não dão conta, sozinhas, de observar tudo o que tem ocorrido. Elas continuam importantes, é claro. A análise de discursos, documentos, entrevistas, votações, programas partidários e matérias jornalísticas continua sendo fundamental para a compreensão da política. A questão é que elas foram desenvolvidas para observar um ambiente político e de comunicação diferente do que encontramos atualmente.

Há claramente um deslocamento visível do fazer político, ou, pelo menos, da dimensão discursiva e performática. Embora as instituições políticas tenham sido concebidas como espaços em que representantes apresentariam ideias, confrontariam propostas, negociariam interesses e tomariam decisões que poderiam resultar em políticas públicas, sabemos que nunca foram somente isso. Em vez de ambientes de discussão racional, a performance, o conflito, a disputa pela visibilidade e os discursos voltados ao público externo sempre fizeram parte da política. O que muda agora é a escala e, mais do que isso, a direção da comunicação.

Grande parte dos personagens políticos, principalmente aqueles que têm mandato, passou a enxergar as instituições também como cenários ou mesmo como estúdios para a produção de conteúdos que chegam aos seus públicos nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e nas plataformas de vídeos.

A tribuna, a comissão parlamentar, a audiência pública e o plenário continuam cumprindo suas funções originais, ao mesmo tempo em que se tornam cenários de gravação. O brasão, a bandeira, os microfones, a bancada e a arquitetura conferem autoridade aos conteúdos, mostram ao público que aquela pessoa ocupa um lugar de poder e, aparentemente, está agindo em nome de seus eleitores.

Uma pergunta, então, é fundamental: quando um parlamentar sobe à tribuna, para quem está falando?

Pode ser para os demais parlamentares, para discutir um projeto, responder a uma convocação ou a uma questão de ordem. Mas a fala também pode ter sido planejada para uma audiência digital, que vê apenas alguns segundos do pronunciamento, que é transformado em vídeo curto quase automaticamente.

Esse deslocamento modifica a própria preparação para a atuação política. Frases, confrontos, gestos e interrupções passam a ser pensados pela possibilidade de produzirem cortes. Perguntas são elaboradas para obter respostas e também para constranger o interlocutor diante das câmeras. Reações de indignação podem ser acentuadas, problemas complexos passam a ser comprimidos em frases de efeito, com o objetivo de produzir uma cena que possa circular.

Isso não significa que toda ação parlamentar seja artificial ou que toda manifestação de indignação seja falsa, mas é necessário reconhecer que os atores políticos sabem que estão sendo gravados e que esse conhecimento interfere na maneira como falam, gesticulam e confrontam adversários.

O conteúdo digital, portanto, não surge apenas após a ação política. Em muitos casos, ele participa de sua concepção.

Primeiro, imagina-se o vídeo que se pretende publicar. Em seguida, busca-se produzir, na instituição, a situação que forneça as imagens necessárias. Depois, é só selecionar o trecho, editá-lo e apresentar ao público uma versão digitalmente organizada daquele acontecimento.

Nesse processo, a fala institucional é transformada. Há a seleção do trecho, a edição, a legendagem, a trilha sonora, o enquadramento, o título e a imagem de capa. Podem ser incluídos closes, repetições, reações de outros participantes e frases escritas sobre a imagem. Partes anteriores ou posteriores são retiradas. Uma pergunta desaparece, permanecendo apenas a resposta. Ou permanece apenas a pergunta, sem que o público saiba o que foi respondido.

O corte, portanto, não é apenas uma versão reduzida da fala original. Ele se torna uma nova peça política, porque a edição pode transformar uma interrupção em demonstração de coragem, uma resposta incompleta em vitória ou um conflito simples em um grande enfrentamento. Pode construir a imagem de um político corajoso, indignado, perseguido ou vitorioso e também transformar o adversário em alguém despreparado, agressivo, derrotado ou incapaz de responder.

Até pouco tempo atrás, grande parte do que acontecia nas instituições chegava ao público por meio da comunicação mediada pelo jornalismo. Repórteres acompanhavam sessões, entrevistas, debates e votações, selecionavam informações, comparavam versões, faziam entrevistas e organizavam os acontecimentos em narrativas jornalísticas.

Essa mediação nunca foi neutra, evidentemente. Os veículos também fazem escolhas, definem enquadramentos e têm limitações, mas havia uma tentativa profissional de apresentar contexto, ouvir diferentes partes e ligar o episódio a discussões mais amplas.

Agora, a comunicação pode passar diretamente dos detentores de mandato para os eleitores ou, em muitos casos, para influenciadores e apoiadores que multiplicam seu alcance em redes sociais, aplicativos de mensagens e grupos fechados. Não significa que a mediação tenha desaparecido, mas apenas mudou de forma.

Entre o político e o eleitor continuam existindo assessores, editores, influenciadores, administradores de páginas e estrategistas de comunicação. Além disso, há uma mediação ainda menos visível: a realizada pelos algoritmos das plataformas, que decidem quais conteúdos serão recomendados, para quem são apresentados e com que frequência aparecem.

Esse deslocamento do lugar da discussão também produz uma descentralização e, ao mesmo tempo, uma fragmentação da própria discussão política.

Mesmo quando o debate ocorre nos espaços organizados pelas instituições, sua circulação pública passa a ser fragmentada, de acordo com a relação de cada parlamentar ou mandatário com sua própria base de seguidores, apoiadores, influenciadores, críticos e haters.

Assim, um debate que deveria ter alguma unidade institucional transforma-se em vários debates paralelos. O mesmo acontecimento pode chegar a diferentes públicos em ordens distintas, com outros protagonistas e interpretações completamente opostas.

E isso também altera a possibilidade de negociação. A construção de acordos, que normalmente envolve concessões, ambiguidades e mudanças de posição, pode ser vista como uma fraqueza por uma audiência acostumada a performances permanentes de confronto.

É claro que as instituições continuam sendo espaços de produção política. Leis ainda são votadas, decisões continuam sendo tomadas, negociações seguem acontecendo e políticas públicas dependem de procedimentos formais. Mas elas passam agora por esse deslocamento de sentido de forma vertiginosa. A perda de centralidade comunicacional é clara, ainda que sua importância formal permaneça. Muitas vezes, o que produz maior impacto público não é a decisão tomada ou o conteúdo integral do debate, mas os poucos segundos que circularam com maior intensidade.

Por isso, observar a política também se torna um desafio.

Que tipo de abordagem precisa ser desenvolvida para compreender o que ocorre na produção, na circulação, na recepção e na discussão das propostas políticas?

Não basta analisar apenas a fala original, pois seu significado pode ser alterado pela edição. Não basta recolher as publicações dos políticos, pois os conteúdos também circulam em páginas de apoiadores, influenciadores e grupos fechados. Não basta contar curtidas, visualizações e compartilhamentos, pois essas métricas não explicam o sentido político de uma mensagem. Também não basta perguntar às pessoas o que assistiram, já que muitas vezes elas não se lembram de como determinado vídeo chegou até elas.

Além disso, não observamos apenas textos. Observamos imagens, sons, gestos, legendas, músicas, cortes, montagens, comentários e sequências de recomendação. Observamos também ambientes personalizados, nos quais dois usuários podem acessar a mesma plataforma e encontrar experiências políticas bastante diferentes.

Quando a política muda de lugar, de formato e de audiência, observar a política também precisa significar outra coisa. Esse é um dos principais desafios para as ciências sociais e, particularmente, para a ciência política: desenvolver métodos capazes de acompanhar a velocidade, a fragmentação e a complexidade desse novo ambiente sem abandonar a teoria, o conhecimento do contexto e a capacidade de interpretar o sentido político.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Fonte https://jornal.usp.br/articulistas/kleber-carrilho/quando-as-instituicoes-viram-estudio/

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