Nos papéis da antiga cadeia
Na Cidade de Goiás – a antiga capital da província de Goiás, terra de Cora Coralina –, ergue-se um dos edifícios mais emblemáticos da administração colonial brasileira. Construída na década de 1760, a chamada Casa de Câmara e Cadeia reunia, como era comum nas vilas do período, duas funções fundamentais do poder local: no pavimento superior funcionava a Câmara municipal; no térreo, a cadeia pública.
Hoje o edifício abriga o Museu das Bandeiras, instituição vinculada ao Iphan e dedicada à preservação da memória histórica da região. Entre seus cômodos sombrios do piso térreo, porém, circularam durante séculos personagens bem menos célebres do que os bandeirantes inventados por certa historiografia já antiga: andavam por lá presos comuns, guardas, carcereiros e funcionários encarregados da rotina administrativa da cadeia.
Dessa rotina sobrevivem documentos que registram aspectos bastante concretos da vida cotidiana. Um deles, datado de 4 de março de 1897, exposto em uma das salas de visitação, é um pedido de gêneros alimentícios destinados aos presos da cadeia da capital goiana. Trata-se de um registro breve, escrito em linguagem administrativa direta, mas que guarda um detalhe linguístico revelador – o uso da palavra ‘dito (a)’ para retomar termos já mencionados – como “presos” e “ração”, por exemplo – e evitar repetições no texto.
É esse pequeno documento, que transcrevemos parcialmente a seguir.
“N.º 4 Cadeã em Goyaz, 4 Março de 1897.
Pedido de generos allimentiscos para os presos da Cadeã pertencente ao municipio da
Capital, do dia 4 para 5 do corrente mez.
Para 1 Preso de duas rações
[Para] 6 Ditos de uma dita
(…)
6 Ditas para 2 enfermos Almoço, Jantar e Seia
Dous quartos de gallinha (…)”.
A palavra que evitava repetir
Evitar repetição de termos é um princípio textual que segue vigente na escrita contemporânea, sobretudo em contextos mais vigiados (ou seja, nos quais a escrita do enunciador pode ser avaliada pelo leitor). Cada época, porém, pode privilegiar determinadas estratégias para promover coesão sem repetir termos – e o pequeno registro da cadeia goiana, ao listar gêneros alimentícios e a distribuição de rações, oferece um exemplo preciso desse funcionamento. Em meio à enumeração, lê-se:
“Para 1 preso de duas rações
[Para] 6 ditos de uma dita.”
À primeira vista, a formulação pode causar estranhamento. A palavra “ditos”, isolada, parece carecer de referente claro, sobretudo para o leitor contemporâneo, pouco familiarizado com esse tipo de expediente. No entanto, a chave de leitura está justamente em um mecanismo de retomada anafórica muito frequente na escrita administrativa oitocentista. Nesse contexto, o manuscrito emprega tanto ‘ditos’ quanto ‘ditas’ como formas anafóricas: ‘ditos’ retoma ‘presos’, enquanto ‘dita(s)’ retoma ‘rações’. Trata-se de uma estratégia de economia linguística: evita-se repetir o substantivo pleno, substituindo-o por uma forma que o remete anaforicamente, perfeitamente recuperável no encadeamento do discurso. Assim, “para 6 ditos de uma dita” deve ser entendido como “para seis presos de uma ração cada” (algo como “seis presos que consomem, cada um, uma porção de comida”).
O trecho, portanto, organiza-se de maneira paralela: existe “1 preso de duas rações” (ou seja, uma categoria de detentos que recebem duas porções) e seis presos recebem uma ração cada. A aparente opacidade da expressão se desfaz quando se reconhece o princípio de funcionamento da escrita, em que a coesão não depende da repetição explícita, mas da capacidade de o leitor reconstruir as relações internas do texto.
Esse tipo de uso revela não apenas um hábito estilístico, mas uma prática consolidada em documentos oficiais, nos quais a brevidade e a eficiência eram valores centrais. Ao mesmo tempo, evidencia como a leitura de manuscritos históricos exige do pesquisador uma atenção particular aos mecanismos de coesão e às convenções discursivas de época – pequenas escolhas formais que, hoje, podem soar enigmáticas, mas que, em seu tempo, garantiam precisamente a clareza necessária ao funcionamento da administração.
O que a escrita administrativa revela
Do ponto de vista linguístico, o caso “dito” é um bom exemplo de estratégia de coesão textual: o escriba mantém a referência ao termo anterior sem precisar repeti-lo integralmente. A palavra “dito”, derivada do particípio do verbo dizer, significa literalmente “o que já foi mencionado”.
Detalhes como esse lembram que a língua escrita também reflete práticas sociais e institucionais. Em documentos burocráticos do século 19, a economia de palavras era uma forma de organizar informações de maneira clara e funcional.
Às vezes, portanto, a estranheza não está no recurso da língua, mas em nosso olhar deslocado no tempo. No século 19, “ditos” e “ditas” não eram enigma: eram apenas a escrita funcionando. E, nesse caso, “ditas” cumpre exatamente esse papel: retoma o que já foi dito e mantém o texto em movimento, sem repetir desnecessariamente as mesmas palavras.
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