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um fracasso? – Jornal da USP

redacao by redacao
17/07/2026
in Mundo Acadêmico
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um fracasso? – Jornal da USP
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Por Hernan Chaimovich, Professor Emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do CNPq

No primeiro semestre de 2026, as aulas de graduação na USP foram suspensas por quase dois meses por uma paralisação estudantil. Seria de se esperar que a administração central e os colegiados da Universidade refletissem sobre o ocorrido. Aparentemente, ninguém está refletindo academicamente nessa direção.

A paralisação dos estudantes da Universidade de São Paulo se alastrou por cinquenta e quatro dias e foi um dos conflitos mais intensos da história recente. O estopim ocorreu no dia 31 de março, quando o Conselho Universitário aprovou a GACE — Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas —, um bônus mensal destinado exclusivamente aos docentes em regime de dedicação integral. A exclusão dos servidores técnico-administrativos acendeu uma insatisfação latente e precipitou uma série de paralisações que se prolongariam por semanas, revelando tensões estruturais acumuladas na universidade.

Em assembleia realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), no dia 9 de abril, os servidores aprovaram por unanimidade a deflagração da greve, marcada para o dia 14. Suas reivindicações centravam-se na isonomia salarial, na reposição das perdas acumuladas desde 2012 e no fim da política de terceirização. A greve dos servidores coincidiu com a adesão estudantil: mais de 105 cursos pararam no primeiro dia, e os estudantes agregaram ao movimento pautas próprias, como o aumento das bolsas do PAPFE, a melhoria dos restaurantes universitários e das condições de moradia no CRUSP.

As reivindicações dos estudantes evidenciaram problemas estruturais sérios da USP que bem poderiam ter sido atendidas sem a pressão dos estudantes. O estado físico de algumas moradias de estudantes da USP é deveras lamentável. E, ao mesmo tempo, a gestão é questionada. A falta de atenção das administrações na supervisão da qualidade dos alimentos servidos nos restaurantes terceirizados ocorre há tempos.

No dia seguinte, 15 de abril, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) aprovou, em assembleia no vão da FFLCH, uma paralisação estudantil unificada por tempo indeterminado. Nas semanas seguintes, a mobilização se alastrou progressivamente. No final de abril, ao menos 15 faculdades e 104 cursos estavam paralisados em campi da capital e do interior, afetando restaurantes e atividades acadêmicas. No dia 24 de abril, os servidores técnico-administrativos encerraram sua greve, após obterem um acordo de aporte financeiro e abono de horas. Os estudantes mantiveram e ampliaram sua paralisação.

A escalada do conflito atingiu seu ponto mais tenso no início de maio. No dia 7, cerca de 150 estudantes ocuparam o saguão da Reitoria, derrubando portão e portas de vidro. Na madrugada do dia 10, aproximadamente 50 policiais militares desocuparam o espaço por volta das 4h15, com uso de cassetetes, bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. Quatro estudantes foram detidos. A USP declarou não ter sido avisada sobre a intervenção, e o episódio radicalizou o movimento. A resposta da Universidade foi criar, no dia 13 de maio, uma comissão de resolução de conflitos.

O movimento atingiu sua maior expressão em 20, quando 10 mil pessoas marcharam ao Palácio dos Bandeirantes, reunindo estudantes, professores e servidores da USP, Unicamp e Unesp. Dias depois, em 25 de maio, uma assembleia da Associação dos Docentes da USP (ADUSP) com 50 docentes presenciais e três centenas virtuais, aprovou uma greve, que contou com pouca adesão dos professores.

O ciclo foi formalmente encerrado no dia 8 de junho, quando uma assembleia geral do DCE, com mais de 500 estudantes, votou, por 323 a 255, pelo fim da paralisação estudantil após 54 dias. Tenho poucas dúvidas de que a condução da paralisação pela administração da USP foi lamentável.

A paralisação dos estudantes foi impulsionada por problemas estruturais existentes na USP. A liderança do movimento aproveitou o ensejo para incorporar temas político-partidários ultrapassados, que mais tinham relação com as eleições deste ano.

Um dos pontos de debate em torno das mobilizações estudantis no Brasil é a questão terminológica e jurídica. Pode a paralisação estudantil ser chamada de greve?

Linguisticamente, sim; tecnicamente, não. O art. 9º da Constituição Federal de 1988 e a Lei nº 7.783/1989 — conhecida como Lei de Greve — definem a greve como a suspensão coletiva, temporária e pacífica da prestação pessoal de serviços ao empregador. Tal definição pressupõe, necessariamente, a existência de vínculo empregatício entre as partes envolvidas. Os estudantes, porém, não mantêm relação de emprego com a universidade: não prestam serviços e não recebem salários. Logo, tecnicamente, não há greve. Ainda assim, o termo greve é amplamente utilizado no vocabulário social e político.

Por outro lado, os direitos que sustentam a paralisação dos estudantes na USP em 2026 são previstos na Constituição: a liberdade de reunião (art. 5º, XVI, CF/88), a liberdade de expressão e de manifestação do pensamento (art. 5º, IV e IX, CF/88) e o direito à livre locomoção. Não existe lei que proíba a paralisação estudantil. A posição jurídica predominante é: a paralisação estudantil é lícita enquanto exercício de liberdades constitucionais, sendo tratada pelo ordenamento jurídico como manifestação coletiva organizada ou mobilização acadêmica e política. Os limites dessa legitimidade são precisos. Apesar de a novilíngua definir a paralisação dos estudantes como movimento pacífico, invasões violentas a prédios da universidade, inundação de corredores com cadeiras retiradas das salas, uso de violência física ou ameaça, que impede professores e estudantes de ter aulas, excedem os limites dessa legitimidade.

Para os estudantes, o impacto da paralisação é real. Os professores não são obrigados a abonar as faltas. A legislação brasileira impõe a frequência mínima de 75% como requisito para aprovação, e decisão tomada em assembleia estudantil não constitui justificativa suficiente para a anulação de ausências. Os estudantes paralisados correm o risco de perder provas, entregas de trabalhos e bolsas. Porém, na prática uspiana, ao fim da paralisação, ninguém é responsabilizado; os calendários são remanejados, os estudantes recebem um ensino deficiente e os mais penalizados são os professores.

A reação pós-paralisação parece ser continuar em frente como se nada tivesse acontecido. Eu estranho que, depois de um evento que paralisou parte dos deveres da universidade, inexista um interesse na análise do movimento e das suas consequências. A ideia de que analisar fracassos ensina mais do que estudar sucessos é defendida por filósofos e cientistas há séculos. Considero que a paralisação dos estudantes da USP foi um fracasso para todos. É justamente por isso que a Universidade deveria debruçar-se sobre a paralisação para aprender com este fracasso.

Os estudantes na Universidade não são um conjunto homogêneo. Alguns concebem a sua atuação, seguindo normas partidárias, como um palco fértil para difundir ideologias e seduzir outros estudantes. Outros só querem estudar para obter um diploma. Entretanto, a maioria dos estudantes aproveita o denso conhecimento que circula na universidades públicas paulistas, são bem formados no campo escolhido e se tornam cidadãos.

Sem considerar a diversidade dos estudantes, resoluções de assembleia com percentagem reduzida ou desprezível continuam a determinar o caminho das paralisações. Este repeteco constitui, a meu ver, um enorme fracasso, pois táticas deste tipo são usadas há décadas, como se a experiência nada ensinasse e métodos novos de atingir objetivos legítimos ainda não tivessem sido concebidos.

Outra face do fracasso é a falta de diálogo permanente entre as administrações da Universidade e os estudantes.

No Brasil, e em São Paulo em particular, setores da sociedade caracteristicamente de extrema-direita acusam a universidade pública de ser um lugar onde professores, todos de esquerda, não trabalham, produzem conhecimento inútil e somente aliciam ideologicamente os estudantes. Este grupo se recusa, por motivos ideológicos, a reconhecer a imensa contribuição das universidades públicas paulistas à sociedade. Para eles, o dinheiro dos contribuintes paulistas não deveria ser investido nas universidades públicas do Estado. Um dos maiores fracassos desta paralisação foi fortalecer estas ideologias negacionistas da sociedade.

Esta minha análise preliminar não é post mortem, mas pretende ser in vita. Um chamado à academia e aos estudantes, para não pensar que la nave va. Antes de esperar que, numa próxima eleição, aconteça uma paralisação semelhante, é necessário fazer uma análise do fracasso desta paralisação. Ao retornar à normalidade, é importante que a comunidade acadêmica não se esqueça de imediato do que houve. É essencial, creio, analisar o que e por que aconteceu a paralisação, como poderia ser evitada ou ao menos mais bem equacionada.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Fonte https://jornal.usp.br/articulistas/hernan-chaimovich-guralnik/a-paralisacao-na-usp-um-fracasso/

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