Por Marcelo Módolo, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e Henrique Braga, doutor pela FFLCH-USP
“Inadmissível o que aconteceu em campo hoje, é papo de encostar o jogador e não entrar mais em campo.” Nesse tuíte indignado, o perfil futebolístico @fotosdoflamengo faz uso de uma construção linguística que já merece atenção de ouvidos mais “atentos”: “é papo de”. A expressão é um precioso exemplo de como as gírias, engendradas no uso cotidiano, podem trazer inovações não apenas lexicais, mas também no âmbito estrutural das línguas, ou seja, em sua gramática.
Da búcula à conversa
“Búcula” é dessas palavras tão inusuais que, ao digitá-la neste artigo, o corretor ortográfico do computador nos adverte de um possível erro. Suas sugestões são, além de “rúcula”, outros vocábulos que, embora incomuns, ainda lhe parecem mais prováveis: “núcula” (uma pequena noz) e “cucula” (um tipo de capa).
O estranhamento da inteligência artificial que trabalha em nosso editor de texto Word se deve à popularização do termo “papo”, com o qual rotineiramente nomeamos a “búcula”, ou seja, o “tecido gorduroso, mole, sob o queixo” (segundo nos ensina o Dicionário Houaiss).
Posteriormente, por metonímia, “papo” passou a significar conversa: uma vez que, quando falamos, essa parte do corpo se movimenta constantemente, conversa tornou-se “bate-papo”, ou simplesmente “papo”. Temos aqui um percurso de inovação linguística que, embora já não seja tão novo, é menos antigo do que muitos podem pensar.
Conforme registrado no Houaiss, o uso documentado mais antigo do termo “bate-papo” se deu em uma edição do jornal “O Globo”, no ano de 1935. É certo que, antes de se consolidar na escrita, o termo circulava na modalidade oral, sendo, portanto, algo anterior ao uso documentado – como sói ocorrer na mudança linguística.
Seja como for, de seus primeiros usos até hoje, passou tempo suficiente para que “papo” passasse a significar “conversa”, sem nem nos darmos conta de que se trata de um brasileirismo (um regionalismo próprio do Brasil). O passo mais recente dessa jornada está na construção “é papo de”.
Gramática das construções: pareamento de forma e significado
Voltando ao exemplo inicial, em “é papo de encostar o jogador”, o enunciador opina sobre como o Flamengo deveria lidar com o atleta Plata, expulso em uma partida do Campeonato Brasileiro. Para ele, o jogador foi imprudente e deveria ser punido com seu afastamento do time, ou seja, para ele, “é o caso de encostar o jogador”.
Outro contexto: uma corrente na rede Instagram incentivava as pessoas a publicarem fotos antigas, nas quais sua aparência estivesse muito diferente da usual. A chamada da “trend”, compartilhada à exaustão, dizia: “É papo de tirar outro CPF”. Outra vez, “papo” não se refere à búcula ou a um bate-papo. Trata-se de um novo uso do termo, ou, para sermos mais exatos, de uma nova construção no português brasileiro.
Na perspectiva da chamada Gramática das construções, que tem a linguista norte-americana Adele Goldberg como expoente, as construções são um pareamento convencional entre forma e significado. Em outras palavras, certos modos de dizer deixam de ser combinações ocasionais de palavras e passam a funcionar como convenções compartilhadas pelos falantes. É por isso que, em muitos casos, o sentido de uma construção não decorre apenas do significado de suas partes, mas da maneira como elas se articulam em conjunto.
Com base nessa proposta, parece que a expressão “é papo de” é uma construção emergente no português do Brasil. Salvo melhor juízo, trata-se de um recurso de modalização por meio do qual o enunciador apresenta uma consequência, uma hipótese ou uma medida como fortemente plausível diante de determinado estado de coisas. O jogador prejudicou o time? “É papo de encostá-lo.” A aparência de uma pessoa mudou demais? “É papo de ela tirar novos documentos.” Em ambas as ocorrências (dois exemplos entre tantos que se podem coletar), o julgamento do enunciador é expresso não por um termo específico, mas pela construção “é papo de”.
É papo de analisar isso mais a fundo
Nos limites deste artigo, partimos de nossa percepção sobre o termo (que nos parece bastante produtivo em contextos informais) e da teoria linguística que se nos mostrou mais relevante para explicar o fenômeno (a Gramática das Construções).
Em todo caso, para conclusões mais apuradas, é papo de fazer um estudo mais profundo sobre o tema. Fica o convite.
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