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Municípios brasileiros terão apoio da USP para participar de ranking internacional de sustentabilidade – Jornal da USP

redacao by redacao
22/06/2026
in Mundo Acadêmico
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Municípios brasileiros terão apoio da USP para participar de ranking internacional de sustentabilidade – Jornal da USP
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Universidade oferecerá capacitação aos participantes e atuará na implementação de metodologia que avalia governança, clima, mobilidade, recursos hídricos e gestão ambiental

Por Rose Talamone

Painel Ranking Green City de Sustentabilidade para os Municipios – Foto: Divulgação Conexidades –  via Flickr

Representantes de 485 municípios de 19 estados brasileiros reunidos em Campos do Jordão, durante a nona edição do Conexidades, evento que discute governança e inovação sustentável, conheceram uma proposta que pretende colocar as cidades brasileiras no mapa global da sustentabilidade. 

Apresentado em painel intermediado pela Superintendência de Gestão Ambiental (SGA) da USP, o Ranking Green City de Sustentabilidade para os Municípios foi lançado como uma ferramenta internacional de avaliação, comparação e aprimoramento de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável.

A iniciativa é uma evolução do sistema criado pela Universidade da Indonésia para avaliar a sustentabilidade das instituições de ensino superior. Hoje, o ranking universitário reúne mais de 1.700 universidades em todo o mundo e tem a USP entre as cinco mais bem colocadas globalmente. Agora, o modelo passa a ser adaptado para cidades, incorporando indicadores relacionados à infraestrutura, mudanças climáticas, gestão de resíduos, recursos hídricos, mobilidade e governança.

A implantação da metodologia no Brasil será conduzida em parceria pela USP e pela Universidade da Indonésia, responsável pela criação do GreenMetric. Além de atuar como articuladora nacional da iniciativa, a USP será responsável pela capacitação dos municípios interessados, oferecendo cursos e orientação técnica para a coleta, interpretação e validação dos dados utilizados na avaliação.

Patricia Iglecias – divulgação Conexidades – via Flickr

Durante o painel, a superintendente de Gestão Ambiental da USP, Patrícia Iglecias, destacou que a proposta quer fortalecer o protagonismo dos governos locais na agenda da sustentabilidade.

“O município passa a integrar um ranking que congrega cidades do mundo todo. Isso permite comparação internacional, troca de experiências, fortalecimento das políticas públicas e aprendizado entre regiões”, afirmou.

Segundo Patrícia, a adesão ao ranking não representa apenas a participação em mais uma certificação ambiental. A proposta é oferecer aos gestores um instrumento de diagnóstico e planejamento. “Vai trazer reputação internacional, mas também um diagnóstico estratégico para os avanços no âmbito do município.”

Diferentemente de rankings tradicionais, o GreenMetric não se limita à atribuição de notas e posições. A metodologia gera um perfil de sustentabilidade para cada cidade participante, identificando pontos fortes, fragilidades e áreas prioritárias para melhoria das políticas públicas. O objetivo é permitir que os municípios acompanhem sua evolução ao longo do tempo e utilizem os resultados como ferramenta de gestão.

Outro diferencial é o acompanhamento acadêmico oferecido pela USP. Durante o primeiro ano de adesão, os municípios receberão capacitação para compreender os indicadores, organizar informações e estruturar as evidências exigidas pelo sistema. “Cada município indicará um coordenador local e nós teremos, como acréscimo a esse ranking, uma capacitação por meio da USP”, explicou a superintendente.

Além dos cursos preparatórios, a USP será responsável por acompanhar os municípios durante o processo e participar da validação das informações apresentadas. Após uma etapa inicial de coleta automatizada dos dados, os governos locais poderão revisar, corrigir e complementar as informações antes da avaliação final.

Patrícia lembrou ainda uma reflexão do ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, para destacar a importância dos governos locais diante da crise climática. “Ele dizia que nós vamos ganhar ou perder a luta pela sustentabilidade nas cidades. São os governos locais que conseguem avançar na sustentabilidade.”

Para a superintendente, a afirmação ganha relevância em um momento em que os municípios estão na linha de frente do enfrentamento de desafios como eventos climáticos extremos, gestão hídrica, mobilidade urbana e adaptação às mudanças climáticas.

Ferramenta para medir e transformar

Diretor do GreenMetric, Vishnu Jowono, professor de Administração Pública da Universidade da Indonésia, explicou que a iniciativa surgiu a partir da experiência acumulada pelo ranking internacional de universidades sustentáveis. “O objetivo é simples e profundo: fortalecer os governos locais por meio de dados e evidências, ajudando a construir cidades mais limpas, saudáveis e resilientes para as futuras gerações.” 

Segundo ele, o ranking não deve ser visto como uma competição entre municípios. “Nós não vemos o ranking como uma corrida para chegar ao topo. Nossa missão é criar uma ferramenta de responsabilidade e transparência.”

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Jowono ressaltou que o programa oferece muito mais do que uma classificação anual. “Estamos oferecendo monitoramento estratégico, mentoria e colaboração, funcionando como um catalisador para o aprendizado coletivo e para mudanças estruturais de longo prazo.”

Atualmente, o ranking reúne 71 cidades participantes na Indonésia e inicia seu processo de internacionalização a partir do Brasil. O modelo utiliza indicadores auditáveis, documentos oficiais e bases públicas de dados para avaliar o desempenho dos municípios. “A avaliação funciona com pontuação máxima de 10 mil pontos distribuídos em dezenas de indicadores. Não aceitamos números de forma cega. Existe um processo de verificação em várias etapas, com validação de evidências e cruzamento de dados oficiais.”

A metodologia avalia seis grandes áreas: ordenamento espacial e infraestrutura, energia e mudanças climáticas, gestão de resíduos, gestão da água, acesso e mobilidade e governança governamental. Segundo o pesquisador, a proposta representa uma mudança na forma de compreender a sustentabilidade urbana.

“Estamos saindo do conceito tradicional de cidade verde para um modelo mais abrangente de cidade sustentável.”

Ele explica que o sistema vai além de indicadores ambientais tradicionais. “Avaliamos resiliência a desastres, transformação digital, integridade da governança, capacidade de desenvolvimento regional, além dos aspectos ambientais tradicionalmente considerados.” Outro diferencial é a sensibilidade ao contexto local. Embora utilize critérios comparáveis internacionalmente, o sistema considera diferenças de porte, estrutura e capacidade administrativa entre os municípios, permitindo análises mais adequadas à realidade de cada território.

Para Jowono, o ranking deve funcionar como um instrumento de transformação da gestão pública. “Não queremos um ranking meramente formal, mas um instrumento de transformação das cidades.” Além da avaliação, a iniciativa prevê a criação de uma rede internacional de aprendizagem entre gestores públicos. Workshops, seminários e espaços de intercâmbio de experiências deverão aproximar municípios de diferentes países, permitindo a troca de soluções para desafios comuns relacionados à sustentabilidade urbana. “É uma avaliação abrangente da saúde do ambiente urbano moderno”, resumiu.

Ao final da apresentação, o diretor reforçou que o objetivo é transformar informações em ações concretas. “Queremos avançar da discussão para a medição e da medição para ações com impacto real. O ranking é um instrumento para sair da teoria e passar para a prática por meio das decisões tomadas dentro das cidades.”

A importância da participação dos municípios foi reforçada por Mario Mantovani, fundador e diretor de Relações Institucionais da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Anamma). Segundo ele, iniciativas de avaliação e certificação em sustentabilidade vêm ganhando cada vez mais relevância para a competitividade dos territórios e para o acesso a oportunidades de desenvolvimento. “Todo município que tem uma iniciativa que pode ser reconhecida internacionalmente ajuda outras cidades e amplia suas oportunidades. Essa busca por certificações pode ajudar o município a se projetar internacionalmente”, afirmou.

Mantovani destacou que indicadores de sustentabilidade passaram a influenciar desde certificações produtivas até o acesso a financiamentos nacionais e internacionais. “Hoje praticamente todas as linhas de crédito exigem padrões de sustentabilidade ou indicadores ambientais. Se o município já estiver preparado para isso, com inventários, planos e certificações, ele terá mais condições de acessar esses recursos.”

Para o diretor da Anamma, iniciativas como o GreenMetric também ajudam as administrações locais a se prepararem para os impactos das mudanças climáticas. “Nós já não estamos discutindo se as mudanças climáticas vão acontecer. Elas já chegaram. A questão agora é como os municípios vão se preparar para enfrentar esses impactos.”

Mantovani ressaltou ainda que cidades de todos os portes podem se beneficiar da iniciativa. 

“As melhores experiências que vemos hoje muitas vezes vêm dos municípios menores, porque existe um engajamento muito grande da população. Todos os caminhos levam à sustentabilidade. O importante é escolher aqueles que ajudam o município a melhorar a qualidade de vida da população e a se preparar para os desafios do futuro”, finaliza. 

Das universidades para as cidades

Criado em 2010 pela Universidade da Indonésia, o GreenMetric nasceu antes mesmo da aprovação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocorreu em 2015. 

Segundo a vice-presidente do programa e também docente da Universidade da Indonésia, Abellia Anggi Wardani, a iniciativa surgiu em um momento em que a sustentabilidade ainda ocupava pouco espaço nas estratégias institucionais das universidades. “Quando o ranking foi criado, em 2010, o objetivo era aumentar a conscientização das universidades sobre a importância da sustentabilidade. Naquele momento, esse ainda era um tema relativamente novo dentro do ambiente universitário”, afirmou em entrevista ao Jornal da USP.

Abellia Anggi Wardani – Foto: Rose Talamone – SCS-RP

Ao longo de 16 anos, a metodologia evoluiu, ampliando sua rede internacional e incorporando novos indicadores. Atualmente, o ecossistema GreenMetric reúne três frentes de atuação: o ranking de universidades sustentáveis, o ranking de cidades sustentáveis e, em breve, um ranking voltado ao setor corporativo.

Segundo Abellia, uma das principais transformações ocorreu na própria compreensão do conceito de sustentabilidade. “No início, o foco estava muito ligado à infraestrutura, aos edifícios e aos aspectos físicos dos campi. Com o tempo, percebemos que a sustentabilidade envolve muito mais do que isso. Ela precisa estar presente nas políticas institucionais, na transparência, na governança e na relação das instituições com a sociedade.”

Essa visão levou à criação de novos indicadores. Em 2025, por exemplo, o GreenMetric passou a incluir critérios relacionados à governança e à digitalização, avaliando aspectos como transparência orçamentária, prestação de contas, participação feminina em cargos de liderança e integração da sustentabilidade aos processos de gestão. “Queremos incentivar as instituições a serem mais transparentes em relação aos recursos destinados à sustentabilidade e às pesquisas voltadas para a comunidade e para a sociedade”, explicou.

A vice-presidente destaca que um dos maiores desafios do programa continua sendo construir indicadores globais sem desconsiderar as diferenças regionais. “Padronizar a metodologia é uma coisa. Conseguir ser inclusivo e refletir adequadamente os esforços realizados por instituições em contextos tão diferentes continua sendo o principal desafio. Por isso, estamos constantemente aprimorando nossos indicadores.”

Para Abellia, a criação do ranking de cidades representa um passo natural na evolução do GreenMetric.

A proposta surgiu da percepção de que muitas iniciativas de sustentabilidade desenvolvidas nas universidades dependem diretamente do ambiente urbano para alcançar resultados concretos. “A universidade funciona como um laboratório onde muitas soluções são testadas. Mas a implementação na sociedade pode ser muito diferente. Queremos compreender melhor essa relação entre universidade e município.”

Ela cita a mobilidade urbana como exemplo. “Uma universidade pode desenvolver excelentes iniciativas dentro do campus, mas a forma como estudantes, professores e funcionários chegam até ele depende das decisões tomadas pelo município. Por isso, sustentabilidade exige uma atuação conjunta.”

A pesquisadora observa que experiências internacionais mostram uma forte correlação entre cidades bem avaliadas em sustentabilidade e a presença de universidades atuantes e conectadas aos governos locais. “Na Indonésia, observamos que algumas das cidades mais bem colocadas no ranking também possuem universidades altamente engajadas. Quando governo local e universidade trabalham lado a lado, ambos avançam mais rapidamente.”

Segundo ela, o novo ranking municipal também foi concebido para apoiar a formulação de políticas públicas. “Queremos que ele seja uma linha de base para os governos locais e também para os órgãos responsáveis pelas políticas urbanas. A proposta é oferecer uma avaliação imparcial, construída com metodologia acadêmica, baseada em evidências e capaz de orientar decisões.”

Ao olhar para os próximos anos, Abellia acredita que a sustentabilidade será cada vez mais influenciada pelas transformações tecnológicas. “Estamos vivendo um período de mudanças muito rápidas impulsionadas pela inteligência artificial. Daqui a dez anos, cidades e universidades provavelmente serão muito diferentes do que são hoje. A tecnologia mudará a forma como planejamos, administramos e compreendemos a sustentabilidade.”

Os municípios brasileiros interessados em participar do ranking podem se inscrever neste link. 



Fonte https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/municipios-brasileiros-terao-apoio-da-usp-para-participar-de-ranking-internacional-de-sustentabilidade/

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